Sirsil pasa al grupo Ramax
A incorporação do Grupo Ramax e do empresário agropecuário Bruno Xavier ao capital acionário do Frigorífico Sirsil voltou a colocar em pauta uma discussão histórica dentro da indústria da carne uruguaia: o que acontece quando grandes grupos regionais desembarcam em plantas locais e como essas mudanças impactam os trabalhadores.
Amalia Antúnez
12 | 5 | 2026

A operação, que segundo informações acabaria resultando na venda total do pacote acionário pertencente ao empresário uruguaio Néstor Larrosa, marca a entrada formal do Grupo Ramax no negócio industrial uruguaio.
O conglomerado já possui operações frigoríficas e feedlots no Brasil, além de presença comercial em mercados internacionais como China, Estados Unidos, Oriente Médio e África.
No entanto, além da dimensão empresarial, a notícia foi acompanhada com especial atenção por trabalhadores e sindicatos do setor, que mantêm uma memória recente marcada por experiências complexas com outros capitais brasileiros no Uruguai.
A indústria frigorífica uruguaia atravessou, nas últimas duas décadas, vários processos de estrangeirização e concentração.
Grupos como Marfrig (agora MBRF), Minerva Foods e JBS protagonizaram etapas de expansão regional que deixaram resultados diferentes.
Em alguns casos houve investimentos, modernização e aumento das exportações.
Em outros, os sindicatos denunciaram conflitos trabalhistas, fechamentos temporários, envio de funcionários ao seguro-desemprego, reestruturações e perda de postos de trabalho.
Por isso, dentro do movimento sindical da carne existe cautela diante de qualquer mudança acionária, especialmente quando envolve grupos estrangeiros com modelos industriais de grande escala.
Outro dos anúncios feitos pelos novos acionistas foi o desenvolvimento de um feedlot próprio, com um investimento estimado entre 7 e 10 milhões de dólares.
Do ponto de vista empresarial, o objetivo é garantir parte do abastecimento de gado para a planta e estabilizar os volumes de abate.
Mas dentro do setor também surgem questionamentos sobre como uma maior integração vertical pode impactar o mercado pecuário local e a relação com produtores independentes.
O Uruguai enfrenta há anos um problema estrutural de disponibilidade de gado para uma indústria que possui mais capacidade instalada do que realmente utiliza.
Essa competição pelo gado tem sido historicamente um dos fatores de tensão entre frigoríficos, produtores e trabalhadores, especialmente quando as fábricas reduzem atividade.
A estrangeirização da indústria frigorífica uruguaia não é um fenômeno novo, mas cada nova chegada volta a evidenciar uma tensão de fundo: a convivência entre a necessidade de investimentos e a perda progressiva de controle nacional sobre um dos setores estratégicos do país.
O Uruguai construiu historicamente sua identidade econômica em torno da produção pecuária e da exportação de carne.
No entanto, grande parte da capacidade industrial ficou nas mãos de grandes grupos transnacionais, principalmente brasileiros, que operam com lógicas regionais e financeiras muito mais amplas do que as necessidades locais.
Isso gera uma contradição permanente: enquanto o país produz a matéria-prima e oferece mão de obra qualificada, as decisões centrais sobre investimentos, fechamento de plantas, ritmos de abate ou redução de pessoal muitas vezes são tomadas além das fronteiras.
No fundo, a discussão não é apenas sobre capitais brasileiros ou estrangeiros.
A verdadeira pergunta é que modelo de indústria o Uruguai deseja.
Se o país se limitar a ser uma plataforma exportadora controlada por corporações transnacionais, o risco é que as comunidades locais fiquem subordinadas a decisões tomadas de acordo com conveniências globais.

