Expansão no norte, crise no sul
A indústria da carne uruguaia voltou ao centro da agenda nos últimos dias, com sinais contraditórios que refletem tanto o dinamismo quanto as tensões internas de um dos setores-chave da economia nacional.
Amalia Antúnez
29 | 4 | 2026

O grupo Marfrig é hoje um dos principais atores da indústria frigorífica no Uruguai, onde conta com cinco unidades industriais e uma unidade de engorda intensiva (feedlot).
Por um lado, no norte do país concretizou uma forte aposta em investimento e crescimento; por outro, no sul, na localidade de Tarariras, no departamento de Colonia, predomina a incerteza quanto à sustentabilidade da atividade e ao futuro dos trabalhadores.
No norte, o frigorífico de Tacuarembó, propriedade da empresa recentemente fusionada com outro grande da indústria de carnes, a BRF (MBRF), inaugurou uma ampliação de sua fábrica, o que permitiu aumentar de forma significativa sua capacidade operacional e incorporar novos trabalhadores.
O investimento —que supera os 70 milhões de dólares— incluiu melhorias de infraestrutura, aumento da capacidade de abate diário (de 800 para 1.400 animais) e a incorporação de tecnologia para processamento e congelamento, consolidando a planta como um polo industrial de referência no setor.
O cenário é muito diferente no sul do país. Em Tarariras, o frigorífico Establecimiento Colonia, também propriedade da transnacional brasileira, atravessa um processo de negociação sem avanços substanciais após a última instância tripartite no Ministério do Trabalho.
A empresa propôs uma reestruturação que implica mudanças na organização do trabalho e no quadro de pessoal.
Entre as possibilidades em discussão está a redução de postos de trabalho, que poderia atingir cerca de 150 trabalhadores segundo propostas iniciais, em uma fábrica que atualmente emprega aproximadamente 800 pessoas.
Embora em instâncias anteriores tenha sido considerada a possibilidade de evitar demissões obrigatórias por meio de mecanismos voluntários, o cenário permanece aberto e faz parte da negociação em curso.
A empresa solicitou a extensão do seguro-desemprego por 90 dias enquanto continuam as conversas, que passarão a ocorrer em formato bipartite.
Do lado dos trabalhadores, a Associação Laboral do Pessoal do Establecimiento Colonia (Alpec) apresentou alternativas para retomar a atividade, embora até o momento não tenha sido alcançado um acordo.
A situação gera especial preocupação em nível local. Em uma localidade como Tarariras, onde o frigorífico constitui uma fonte central de emprego, qualquer ajuste no quadro de pessoal impacta diretamente dezenas de famílias e a dinâmica econômica da região.
Em San José, também no sul, onde a MBRF possui outro frigorífico, a atividade foi retomada após a empresa antecipar a licença de todo o quadro de funcionários em março passado. Atualmente, trabalham três ou quatro vezes por semana.

