“Le Monde” expõe condições de trabalho na “capital brasileira dos matadouros”
Com a implementação do acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, as condições de trabalho em um dos maiores setores de exportação do Brasil, o de processamento de carne, irão piorar, segundo investigação de um jornal europeu.
Daniel Gatti
6 | 5 | 2026

Em Chapecó, uma cidade de concreto com pouco menos de 300 mil habitantes, localizada no oeste do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, não faltam oportunidades de trabalho. Nas paredes dos prédios, nas pontes que margeiam as estradas, anúncios convidam as pessoas a se juntarem às fábricas das gigantes do agronegócio MBRF, Aurora, JBS e Ecofrigo.
Essa descrição inicia uma longa reportagem que o jornal francês Le Monde dedicou na semana passada a Chapecó, a "capital dos matadouros" do Brasil, com foco nas condições de trabalho em um setor que continua a crescer e crescerá ainda mais com a implementação do acordo UE-Mercosul.
O acordo de livre comércio, negociado desde 1999, entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio, e tudo indica que o Brasil aumentará significativamente suas exportações de carne suína e de aves para a UE: em quase 20% entre agora e 2040, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Economia Aplicadas (IBGE).
Os cerca de 19.500 trabalhadores empregados no setor em Chapecó, incluindo brasileiros e migrantes, principalmente haitianos e venezuelanos, mas também árabes, não conseguirão suprir a demanda.
As empresas estão contratando “todos os dias”, mas não há indícios de que as condições de trabalho irão melhorar.
“Ritmos de trabalho infernais, trabalho no frio, máquinas defeituosas” e, como consequência, constantes acidentes de trabalho. Em sua reportagem, o Le Monde confirma o que os sindicatos brasileiros da indústria de carne, e com eles a Rel UITA, vêm denunciando há anos: que os lucros exorbitantes das empresas não chegam aos trabalhadores.
“Após alguns meses, o entusiasmo inicial” das pessoas de baixa renda, que estavam radiantes por finalmente terem conseguido um emprego estável em um setor dinâmico da economia, “começou a se dissipar”.
“Nos matadouros, porcos, perus e frangos desfilam em ritmo frenético nas linhas de produção, obrigando os trabalhadores a repetir incansavelmente os mesmos movimentos até a exaustão”, afirma o jornal parisiense, ecoando as declarações do Dr. Roberto Ruiz, especialista em medicina do trabalho e diretor do Departamento de Saúde da Rel UITA.
O setor de processamento de carne, segundo nosso correspondente em entrevista ao Le Monde, “é um dos setores ocupacionais mais perigosos do Brasil”.
Tendinite, perda auditiva, diversas infecções, mutilações e depressão estão entre as doenças ocupacionais mais comuns entre os trabalhadores de frigoríficos.
Em Chapecó, segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde Ocupacional, os matadouros representam quase 15% dos acidentes de trabalho registrados entre 2012 e 2024. Chapecó também apresenta uma taxa de acidentes quatro vezes maior que a média nacional.
O jornal reuniu inúmeros depoimentos de funcionários da empresa.
Entre eles, os de Claire Fatima, uma operária de 55 anos com mais de 15 anos de experiência na MBRF, que não consegue mais pentear o cabelo porque perdeu a mobilidade nos braços e nas mãos; Fabiola, uma venezuelana de 28 anos que quase perdeu a gravidez devido ao ritmo frenético de produção na JBS; e Enmanuel, também venezuelano e funcionário da JBS, que perdeu um dedo por negligência da empresa...
Se você não atingir sua meta de produção, precisa almoçar às pressas e até mesmo segurar a comida enquanto usa o banheiro, disseram os trabalhadores.
Claire Fátima, líder sindical, criticou algumas normas europeias por agravarem ainda mais o frio já intenso nas fábricas brasileiras: "É excessivo e causa dores de cabeça e sinusite, além do barulho ensurdecedor e da falta de janelas", afirmou.
As pessoas que mais sofrem com essas condições são as mulheres, que, por sua vez, representam mais de 60% da força de trabalho nas fábricas, disse a trabalhadora.
A direção da empresa nega tudo. Como a JBS, que enviou uma carta ao Le Monde afirmando que “a saúde e a segurança de seus funcionários são um dos pilares fundamentais de seus negócios”.
Os sindicatos têm uma visão diametralmente oposta. O mesmo ocorre com pesquisadores de diversas áreas.
Se o Brasil conseguir exportar os volumes atuais de carne, "isso acontecerá ao preço da exploração dos trabalhadores", denunciou José Álvaro Lima Cardoso, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em Santa Catarina.
O acordo UE-Mercosul pode agravar a situação, afirmou ele, porque as empresas resistirão a melhorar as condições de trabalho e os salários de seus funcionários, argumentando que perderão competitividade e que o Brasil reduzirá sua participação de mercado.
É exatamente isso que eles estão fazendo.
E contam com o apoio de um Congresso dominado como nunca antes por setores conservadores.
Dos 594 parlamentares brasileiros, 349 pertencem à chamada "bancada do boi", alinhada a grandes empresas do agronegócio.
Tudo indica, destacou De Lima, que com o acordo com a UE, esse setor aumentará seu poder dentro de uma economia que se tornará cada vez mais dependente da exportação de matérias-primas.

