A saúde do trabalhador no Brasil de hoje
Fazia quase doze anos que não nos víamos com a doutora Maria Maeno, parceira e amiga de tantas lutas. Coincidimos no Seminário Nacional sobre Saúde e Segurança dos Trabalhadores da Alimentação, organizado pela CONTAC/CUT e realizado em Concórdia (SC) nos dias 18 e 19 de março passados.
Gerardo Iglesias
17 | 4 | 2026

Começamos nosso diálogo lembrando a Siderlei de Oliveira, porque, embora fisicamente já não esteja, continua orbitando cada conversa sobre o mundo do trabalho como uma referência moral e política.
Maeno o lembra como “um ser humano incrível” e, sobretudo, como um dirigente sindical impossível de substituir. Corrige inclusive a palavra: ninguém substitui ninguém. Ele era articulador, tecedor de vínculos, amigo, afetuoso. Uma raridade.
“Foi um privilégio ter conhecido Siderlei. Um verdadeiro privilégio, com todo o seu bom humor”, recorda.
Esse ponto de partida não é casual.
Para Maria Maeno – médica, pesquisadora e uma das principais referências em saúde do trabalhador no Brasil, com trajetória no sistema público de saúde (SUS), na pesquisa acadêmica e em organismos vinculados à saúde do trabalho –, a memória não é um gesto nostálgico, mas uma forma de ler o presente. E o presente, segundo descreve, é mais duro hoje do que há alguns anos.
O dever de memória não a impede de reconhecer a renovação em curso na CONTAC, “uma confederação tão importante e protagonista hoje está presidida por Josimar Cecchin, um jovem que me impressionou. Mas não é um caso isolado, encontrei muitos outros dirigentes que também representam essa nova geração”, destaca.
O que impressiona é a forma como essa juventude convive com os mais veteranos, aponta Maeno. Não há desprezo pelos velhos e pelo antigo. Pelo contrário: há uma composição mista, uma combinação entre história e energia que se mostra extremamente potente.
“É muito energizante para nós”, resume.
Maeno ressalta, além disso, a visão da direção da CONTAC e do SINTRIAL, preocupados em realizar um seminário nacional como o de Concórdia sobre saúde e segurança no trabalho.
“Destaco essa iniciativa porque, justamente, há temas que continuam sendo subestimados dentro do próprio movimento sindical. Um deles é o da saúde e segurança do trabalhador”.
Muitas vezes, a alta direção dos sindicatos não se envolve, porque considera que é um tema menor diante das lutas econômicas. “É um erro”, afirma.
Para ela, é justamente na saúde que se expressa de forma mais dura o conflito entre capital e trabalho. É ali que aparecem as vítimas, na forma de mortes, acidentes e doenças.
“E hoje o cenário parece mais duro. A ‘massacre’ é maior. E, ao mesmo tempo, o sistema de ocultamento se refinou e a situação se agrava com as transformações recentes do mercado de trabalho, especialmente com o avanço das plataformas digitais”, diz.
“A formalização já não vem pela CLT. Vem como pessoa jurídica. Mas a pessoa jurídica não adoece, não se acidenta”.
Na prática, isso significa que muitos trabalhadores ficam fora de qualquer registro oficial de acidentes ou doenças relacionadas ao trabalho.
“O único lugar onde isso poderia aparecer é no SUS. Mas muitos desses trabalhadores têm plano de saúde e nem sequer passam por ali. Ou seja, cria-se um vazio de informação”.
Esse processo leva a um fenômeno mais amplo, descrito por Christophe Dejours: o ocultamento por um lado e o sofrimento em silêncio por outro.
“Há um silenciamento. Há uma ocultação dos acidentes e das doenças relacionadas ao trabalho”.
Embora a imprensa destaque o aumento das licenças por doenças mentais, há um ponto pouco debatido: a imensa maioria desses casos não é reconhecida como relacionada ao trabalho.
No passado, outras doenças tiveram maior visibilidade.
“Nas décadas de 1990 e 2000, as lesões por esforços repetitivos ganharam destaque. Houve debate, reconhecimento. Hoje, o sofrimento mental cresce, mas não tem a mesma visibilidade”.
E isso não significa que os problemas físicos tenham desaparecido, muito pelo contrário.
“No chão de fábrica, os trabalhadores continuam com hérnias de disco, problemas de coluna, ombros, punhos… tudo continua. O que caiu foi a visibilidade social”.
Em setores como o de frigoríficos, onde o processo de trabalho continua extremamente penoso, a situação é ainda mais crítica.
Diante de tudo isso, uma frase continua ressoando repetida ao final de cada atividade, como um lembrete constante de Siderlei: A luta continua!
Uma consigna que, no campo da saúde e segurança do trabalho, diz Maeno, é “mais atual do que nunca”.


