“O fotógrafo que escondeu e salvou a história”
Amalia Antúnez
10 | 9 | 2026

A realização de O fotógrafo que escondeu e salvou a história foi muito mais do que a produção de um documentário. Foi um encontro entre jornalistas, fotógrafos, sindicatos e organizações do Brasil e do Uruguai em torno de uma figura excepcional: o fotógrafo Aurelio González.
Aurelio preservou mais de 70 mil negativos que registram os anos anteriores ao golpe de Estado de 1973, a grande greve geral e boa parte da história que antecedeu seu exílio.
Conhecemos Itamar Aguiar, Milton Cougo e Marco Villalobos, Marquinho, por meio de nosso amigo e assessor Jair Krischke e do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) de Porto Alegre.
A Rel UITA e o MJDH fazem parte de uma mesma trama latino-americana de solidariedade, memória e defesa dos direitos humanos, fortalecida ao longo de décadas pelos vínculos entre o movimento sindical, o jornalismo comprometido e as organizações de direitos humanos.
No âmbito pessoal, o vínculo com aquilo que gosto de chamar de braço audiovisual do MJDH se estreitou a partir da realização e do lançamento de Silêncio e da exposição fotográfica homônima, em 2025.
O documentário sobre “El Tigre”, como Aurelio é conhecido por seus colegas, nasceu de um sonho de Marquinho e acabou se transformando em uma construção coletiva que atravessou fronteiras.
Foi realizado em tempo recorde e, como destaca Itamar, “a muitas mãos”: pessoas e instituições dos dois países contribuíram com contatos, experiências e vontades para que a história de Aurelio chegasse primeiro ao Uruguai e, depois, ao Brasil.
O apoio da Rel UITA, de integrantes da Associação de Mães e Familiares de Uruguaios Detidos Desaparecidos e da central sindical uruguaia foi fundamental para essa primeira etapa.
Novas portas
Em Porto Alegre, o documentário abriu novas portas e gerou encontros com jornalistas, fotógrafos e profissionais de rádio e televisão. A presença de Aurelio e sua esposa, Rintje, fez com que a experiência adquirisse uma dimensão ainda mais especial.
Aos quase 95 anos, Aurelio pôde compartilhar suas lembranças, suas fotografias e seu olhar sobre aqueles anos, tornando-se um testemunho vivo da nossa história.
Para Marquinho, que conhece Aurelio há aproximadamente três décadas, realizar o documentário, além de um sonho, foi uma forma de homenagear um dos grandes nomes do fotojornalismo no mundo.
“Além de ser um profissional imenso, é uma pessoa doce, querida e de uma enorme humanidade”, destaca o jornalista, professor e historiador.
Essa mesma impressão ficou entre aqueles que participaram das atividades no Brasil.
O Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (SindiJoRS), com o apoio da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos (ARFOC), entre outras organizações, somou-se à divulgação de sua vida e de sua obra.
Uma lição de jornalismo e de vida
Para Zé Carlos Andrade, editor do documentário, encontrar Aurelio significou muito mais do que conhecer o trabalho de um fotógrafo de outra geração.
Conversar com ele, olhar suas imagens e ouvir suas histórias foi, em suas palavras, “uma lição de vida, de jornalismo e de fotografia”.
A lucidez de Aurelio, sua energia e sua defesa dos direitos humanos e da democracia surpreenderam todos aqueles que compartilharam esses encontros.
O fotógrafo que escondeu e salvou a história recupera justamente essa dimensão: a de um homem que, por meio de seu ofício, encontrou uma maneira de resistir ao esquecimento.
O olhar de Jair
Para Jair Krischke, presidente do MJDH, a apresentação do documentário em Porto Alegre teve algo de inesperado.
A sala, com capacidade para cerca de 80 pessoas, ficou completamente lotada e muitas pessoas tiveram que permanecer no corredor. Foi necessário realizar uma segunda exibição.
O relato sobre o golpe no Uruguai, a trajetória de Aurelio e, especialmente, sua presença geraram entusiasmo e novos convites.
“Seu jeito simples, próximo e autêntico de ser acabou conquistando a todos”, conta Jair, que também destacou a enorme qualidade profissional do fotógrafo.
“Sem dúvida, Aurelio González é um grandioso repórter fotográfico, o que é muito diferente de ser um retratista”, afirmou.
Magia ou milagre?
Mas talvez seja o próprio Aurelio quem melhor explique por que esta história tem algo de mágico.
Os mais de 70 mil negativos permaneceram escondidos durante mais de trinta anos nos dutos do edifício onde funcionava o jornal El Popular.
Tudo levava a crer que a umidade acabaria destruindo os filmes e apagando para sempre aquelas imagens.
Mas aconteceu exatamente o contrário.
A umidade, em vez de destruir os negativos, selou com ferrugem as latas que os protegiam, preservando praticamente intactos os registros daquela época.
O que deveria ter sido a causa de sua destruição acabou se transformando, de maneira quase inacreditável, no mecanismo de sua conservação.
Aurelio lembra que, certa vez, enquanto contava essa história em Tacuarembó, no norte do Uruguai, e dizia que os negativos haviam sido preservados como algo mágico, alguém da plateia o interrompeu: “Mágico, não. Isso foi um milagre.”
Talvez as duas palavras sirvam. Porque um homem decidiu esconder aquelas fotografias para salvá-las do medo e da ditadura, e o tempo, contra todas as expectativas, as preservou para que um dia pudessem voltar à luz.

