A justiça demora… e o veneno sempre chega primeiro
Carlos Amorín
24 | 3 | 2026

Em Lavalle, Corrientes, Argentina, o veneno tinha nome técnico: Alfaendossulfão. Mas na memória de um povo ficou com outro nome: Nicolás.
Tinha apenas cinco anos. Corria, brincava, como brincam as crianças nas bordas dos campos hortícolas onde a terra se mistura com produtos químicos e os tomates crescem sob plástico. Era março de 2011 quando Nicolás Arévalo e sua prima Celeste Estévez brincavam perto de uma chácara de tomate em Puerto Viejo. Ali havia ficado uma poça. Não era água. Era veneno.
O produtor hortícola Ricardo Nicolás Prieto havia pulverizado com um pesticida organoclorado altamente tóxico. Segundo reconstrução da justiça, a fumigação foi realizada sem controles adequados, com as cortinas das estufas abertas e com resíduos do agroquímico acumulados em uma vala. O vento fez o resto: dispersou os vapores para as áreas próximas onde as crianças brincavam.
Nicolás inalou o veneno. Também o tocou. Dias depois morreu por um edema agudo de pulmão provocado por intoxicação com endossulfão. Celeste sobreviveu após meses de internação e carrega sequelas até hoje.
A cena parece simples, brutal em sua clareza: uma fumigação irresponsável, um produto químico extremamente perigoso e duas crianças expostas. Mas o que veio depois foi outra história, muito mais longa. A justiça argentina levou quase uma década e meia para fechar o círculo.
Em 2016 o produtor foi absolvido em um primeiro julgamento. A família de Nicolás recorreu. O Superior Tribunal de Justiça de Corrientes anulou aquela decisão e ordenou um novo processo. Finalmente, em 2020 um tribunal penal de Goya condenou Prieto a três anos de prisão por homicídio culposo e lesões culposas. A pena foi suspensa.
A defesa continuou recorrendo. O processo subiu instâncias judiciais até chegar à Corte Suprema de Justiça da Nação. O tribunal máximo rejeitou o último recurso e manteve a condenação. Em 2026, o Superior Tribunal de Justiça de Corrientes voltou a ratificá-la. Três anos de prisão condicional pela morte de uma criança.
Para a família, para as organizações socioambientais e para os povos fumigados do país, a decisão tem duas leituras: chega tarde e parece insuficiente. Mas também estabelece um precedente.
É uma das poucas condenações penais contra um produtor pelos efeitos dos agrotóxicos na Argentina.
O inseticida envolvido, o endossulfão, era habitual e amplamente utilizado em culturas intensivas de frutas e hortaliças. Durante anos foi denunciado por seus efeitos neurotóxicos e por sua persistência no ambiente.
Paradoxalmente, o produto foi proibido na Argentina apenas depois da morte de Nicolás, quando o país adotou a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes. Até então, o dano já estava feito.
Lavalle, a localidade onde ocorreu a tragédia, faz parte de uma das principais regiões hortícolas do nordeste argentino. Ali, as pulverizações fazem parte da rotina produtiva. É “o normal”. Os agrotóxicos circulam com naturalidade entre estufas, casas e valas de drenagem. Nesse cenário, a linha entre o cultivo e a vida cotidiana é quase inexistente.
A decisão contra Prieto não julga apenas um fato isolado, mas expõe uma lógica mais ampla. Durante décadas, o uso de agrotóxicos cresceu exponencialmente na agricultura argentina sem controles eficazes em áreas povoadas. Denúncias de intoxicações, doenças e contaminação ambiental se repetem em diferentes províncias. No entanto, os processos judiciais raramente avançam.
Por isso, a sentença do caso Nicolás tornou-se simbólica. Não porque repare o dano —isso é impossível—, mas porque abre uma fissura na histórica inércia de impunidade. A decisão afirma algo que por anos se tentou negar: pulverizar sem controle mata.
Em Lavalle, o lugar onde Nicolás caiu naquela vala já não é apenas um acidente rural. É uma fronteira invisível entre dois modelos.
De um lado, a lógica produtiva que naturaliza os tóxicos como parte inevitável do progresso agrícola. Do outro, a vida cotidiana de quem habita esses territórios: crianças que brincam, famílias que vivem e comunidades que respiram o mesmo ar que atravessa os cultivoss.
Quinze anos depois, a justiça colocou um ponto final no processo. Mas o debate está apenas começando. Porque a ameaça continua aberta, pairando sobre os campos fumigados da América Latina.
Quantos Nicolás e Celestes ainda serão necessários para que o veneno deixe de ser “o normal”?

