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A inclusão é real?

As mulheres, as mais prejudicadas pela
exploração capitalista

A companheira Jaqueline Leite, responsável de Gênero e Diversidade da Rel UITA, participou como palestrante principal na edição 19 do Viver Mulher, da nossa filiada a Confederação Nacional de Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade (CONTRATUH), no dia 27 de março.

Amalia Antúnez

3 | 4 | 2025


Foto: Contratuh

O Viver Mulher é uma atividade promovida no âmbito do Mês da Mulher, que busca visibilizar o papel das trabalhadoras no setor. Idealizada e organizada por Maria dos Anjos Hellmeister, Mariazinha, a atividade conta com uma grande participação desde sua criação.

Este ano, foi realizada de forma virtual e contou com a presença de dirigentes sindicais, trabalhadores e trabalhadoras de diversas partes do Brasil.

A palestra de Jaqueline focou na inclusão das mulheres no mercado de trabalho e deixou mais interrogações do que respostas.

Em sua apresentação, ela avaliou a construção da inclusão de gênero como um processo “sociocultural, que atribui ao homem e à mulher papéis diferentes dentro da sociedade, dependendo dos costumes de cada lugar, da experiência diária das pessoas, da forma como se organizam a vida familiar e política de cada sociedade”.

Divulgou também dados estatísticos sobre a importância da mulher no Brasil, onde se demonstra que elas estão mais escolarizadas, mas têm menor participação no mercado de trabalho, destacando que as que estão ativas no setor ganham 21% a menos que os homens.

Hoje em dia, as mulheres ocupam 39% dos cargos gerenciais e trabalham o dobro nas atividades domésticas.

Os números são reduzidos, com 53,3% de mulheres na força de trabalho, frente a 73,2% de homens. Nos cargos mais altos, 60,7% são homens, contra 39,3% de mulheres.

Assimetrias

As posições de liderança continuam sendo ocupadas, na sua maioria, por homens brancos em empresas privadas e organizações sindicais de diversos níveis.

Os estereótipos de gênero reforçam papéis diferenciados, atribuindo aos homens os espaços públicos e às mulheres os espaços privados.

“O tratamento desigual das mulheres se expressa tanto em termos salariais quanto também na ocupação de cargos de poder e liderança. Existe dificuldade de contratação e até um forte preconceito por parte das empresas em relação às mulheres que têm filhos ou que desejam ser mães”, disse Leite.

Um homem que deseja ser pai é preferido em vez de uma mulher com a mesma qualificação, mas que deseja ser mãe.

A desigualdade também afeta as taxas de desemprego: “são mais elevadas entre as mulheres e os salários são mais baixos que os dos homens. Outro detalhe é que o emprego feminino está altamente concentrado em determinados setores e ocupações”.

Equidade vs igualdade

A mulher não só sofre pela desigualdade salarial, mas também é penalizada excessivamente pela situação doméstica, pela falta de uma divisão equitativa das tarefas na casa e dos cuidados.

Jaqueline observou que há “dificuldades para retornar ao mercado de trabalho após a licença maternidade” e citou Heleieth Saffioti quando aborda a opressão feminina em diferentes estruturas sociais, incluindo o mercado de trabalho.

“A mulher, na sociedade capitalista, tem uma dupla jornada de trabalho. Existe uma desvalorização do trabalho feminino, tanto no âmbito produtivo quanto no reprodutivo”, disse.

E conclui que o capitalismo se beneficia da opressão das mulheres, extraindo delas um valor de trabalho sub-remunerado e, muitas vezes, invisibilizado.

Com o objetivo de colocar em prática a tão mencionada equidade de gênero, muitas empresas estão se adaptando à realidade da mulher no mercado de trabalho, flexibilizando horários e formas.

Um exemplo disso é o trabalho em remoto, que surgiu, sobretudo após a pandemia de Covid-19, como uma alternativa para as mulheres que ainda precisam cuidar sozinhas da casa e dos filhos.

Mas será que esse tipo de trabalho é uma forma de incluir as mulheres? Ou continua sendo mais uma das tantas formas de exploração que, por meio da precarização do trabalho, ou, como diz Ricardo Antunes, da uberização do trabalho, só soma tarefas às mulheres, sobre explora e as deixam em situação de maior vulnerabilidade?

Cabe aos sindicatos, enquanto organizações sociais, dar respostas sobre as novas formas de exploração do capitalismo. Embora as mulheres não sejam as únicas afetadas, elas são as mais prejudicadas.