Precariedade laboral na Nestlé
A atitude irresponsável das autoridades da Nestlé diante de uma série de acidentes de trabalho sofridos por um trabalhador preocupa os representantes sindicais na empresa.
Bernabel Matos
10 | 9 | 2026

Apesar de a legislação trabalhista equatoriana exigir que as empresas tenham comitês de Higiene e Segurança, e de na planta da Nestlé em Guayaquil existir um que, teoricamente, funciona, são muito poucas as reuniões realizadas.
Sempre os representantes da empresa apresentam desculpas para não comparecer, deixam a reunião antes de seu término ou simplesmente propõem que ela seja transferida para outra data, deixando evidente que, para eles, a segurança dos trabalhadores fica em segundo plano.
Eletricista com mais de nove anos de antiguidade na Nestlé, Pablo sofreu dois acidentes dentro da empresa.
Em razão da gravidade do último, a entidade estatal responsável pelos riscos do trabalho o classificou como acidente de trabalho, atribuindo responsabilidade patronal pela inobservância das medidas de segurança.
A empresa contestou as quatro resoluções do parecer da instituição, alegando que não aceita sua responsabilidade, apesar de todas as instâncias do Instituto Equatoriano de Seguridade Social (IESS) terem decidido nesse sentido.Incapacitado em 51%
Como resultado final do caso, o IESS indenizou Santana pelo período de incapacidade, observando ainda que ele não pode permanecer muito tempo em pé ou sentado, nem subir e descer escadas.
Também não pode permanecer em áreas com muito frio ou muito calor devido à prótese que possui no joelho direito.
O trabalhador teve de passar por três cirurgias.
O primeiro acidente que sofreu, em decorrência de uma queda, em fevereiro de 2018, deixou como consequência um transtorno na coxa esquerda e a ruptura do músculo adutor maior. Ele também sofre de hérnias de disco.
Pablo Santana ficou com uma deficiência física de 51%, necessitando de tratamento médico e terapias de caráter permanente.
Embora a empresa cubra esses tratamentos, ela o obriga a apresentar as notas fiscais das despesas realizadas para então efetuar o reembolso, o que lhe causa dificuldades devido à falta de liquidez.
O mundo de cabeça para baixo
O cúmulo de tudo isso é que nosso companheiro está sendo processado pela Nestlé por “negligência”, por não caminhar pelos locais indicados pela empresa, embora existam vídeos que demonstram exatamente o contrário.
A empresa também processou o próprio instituto estatal.
A transnacional rejeita todas as decisões do IESS contrárias aos seus interesses, com o objetivo de “se defender” diante das evidentes precariedades de seus equipamentos de segurança, que contrariam as próprias diretrizes emanadas da matriz da Nestlé na Suíça.
Também rejeita essas decisões para não indenizar nem pagar uma pensão permanente ao companheiro Pablo.
A empresa avalia, ainda, que suas influências políticas no governo de Daniel Noboa e sua pressão sobre a Justiça acabarão jogando a seu favor.
Pablo Santana não dispõe de recursos e, evidentemente, tampouco de condições para enfrentar essa absurda ação judicial.
Conta, isso sim, com o apoio incondicional da Felatran e da Rel UITA para sensibilizar a opinião pública internacional e reverter essa situação, na qual a vítima é novamente vitimada pela indolência e pela irresponsabilidade da Nestlé.

