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Ele escondeu 70 mil negativos da ditadura uruguaia

Aos 94 anos, Aurelio González tem sua história levada ao cinema

Documentário realizado por profissionais do Brasil e do Uruguai estreia no país em Porto Alegre, com a presença do fotógrafo que arriscou a própria segurança para impedir que um capítulo da história fosse apagado.

Felipe Vieira

13 | 8 | 2026

Quando a ditadura uruguaia ameaçou fazer desaparecer as imagens de uma época, Aurelio González tomou uma decisão que atravessaria gerações: escondeu cerca de 70 mil negativos. Perseguido, preso e depois obrigado a viver nove anos no exílio, salvou não apenas fotografias, mas parte da memória de seu país.

Hoje, aos 94 anos, é ele próprio quem se transforma em personagem de uma história que precisava ser preservada — e contada.

Aurelio estará em Porto Alegre no dia 31 de agosto para a estreia brasileira de “O fotógrafo que escondeu e salvou a história”, documentário realizado por Itamar Aguiar, Marco Villalobos, Milton Cougo, Zé Carlos de Andrade e pela jornalista uruguaia Amalia Antúnez.

A sessão será às 19h, no CineBancários, e contará com a presença do próprio Aurelio. Depois da exibição, ele participará de um debate com o público e receberá uma homenagem na semana em que se celebra o Dia do Repórter Fotográfico e do Repórter Cinematográfico, em 2 de setembro.

Poucas trajetórias poderiam simbolizar de maneira tão contundente a importância de quem transforma um instante em documento e uma fotografia em testemunho.

A história de Aurelio começou muito longe do Uruguai. Ele nasceu no Marrocos, então sob domínio espanhol, e chegou ao país sul-americano aos 21 anos. Ali encontrou uma nova pátria e, na fotografia, uma profissão que acabaria colocando sua vida no caminho de alguns dos acontecimentos mais dramáticos da história uruguaia.

Aurelio trabalhou no jornal El Popular, ligado ao Partido Comunista do Uruguai, e durante três anos foi o único fotógrafo da publicação. Com sua câmera, acompanhou as transformações de um país que começou a mergulhar em um processo de crescente autoritarismo no final dos anos 1960 e que desembocaria no golpe de Estado de 27 de junho de 1973.

Manifestantes, trabalhadores, movimentos populares, repressão, conflitos políticos e a histórica greve geral de resistência ao regime passaram diante de suas lentes e das de seus colegas. Ao longo desse período, formou-se um acervo gigantesco: aproximadamente 70 mil negativos.

Eram fotografias, mas também provas

Quando ficou evidente que aquele patrimônio poderia cair nas mãos da ditadura e ser destruído, surgiu a decisão que definiria a trajetória de Aurelio. Os negativos foram escondidos no prédio onde funcionava o El Popular, no centro de Montevidéu.

Naquele momento, proteger as fotografias significava proteger a própria memória de um país.

A repressão atingiria também o fotógrafo. Aurelio foi perseguido, preso e acabou deixando o Uruguai. Passaria aproximadamente nove anos no exílio.

Quando finalmente pôde voltar, uma de suas primeiras preocupações foi recuperar aquilo que havia deixado escondido. Retornou ao antigo prédio do jornal. Os negativos não estavam mais lá.

Começava então um segundo capítulo quase inacreditável dessa história. Depois de procurar, perguntar e tentar reconstruir o que havia acontecido durante sua ausência, surgiu uma pista: alguém teria visto negativos no prédio.

O imóvel havia passado por uma grande reforma. Aurelio acredita que trabalhadores envolvidos na obra tenham compreendido a importância daquele material e decidido protegê-lo novamente, transferindo os negativos do esconderijo original para outro ponto da construção.

Depois de muita procura, o acervo foi encontrado entre estruturas e dutos do antigo prédio. Os 70 mil negativos haviam sobrevivido.

Décadas mais tarde, outra operação de resgate começou. Desta vez, ninguém precisava esconder fotografias. Era necessário impedir que a extraordinária história por trás delas desaparecesse com o passar do tempo.

Foi aí que entraram Itamar Aguiar, Marco Villalobos, Milton Cougo, Zé Carlos de Andrade e Amalia Antúnez.

Marco Villalobos conhecia Aurelio havia bastante tempo e carregava consigo o desejo de produzir algo sobre aquela trajetória. Quando o projeto finalmente ganhou forma, reuniu profissionais dispostos a colocar experiência, talento e, sobretudo, envolvimento pessoal a serviço dessa memória.

Ao falar sobre Aurelio, Villalobos encontra uma definição que talvez diga mais sobre o personagem do que qualquer currículo: “O cara é um poema vivo.

É uma frase simples, mas que ajuda a compreender o vínculo estabelecido entre quem viveu a história e aqueles que decidiram contá-la.

O documentário também nasceu de uma entrega que ultrapassou a lógica de uma produção convencional. Houve muito trabalho feito por compromisso com o projeto, investimento pessoal e disposição para levar o filme adiante mesmo diante das dificuldades financeiras.

Villalobos faz questão de destacar a contribuição de Zé Carlos de Andrade, responsável por um trabalho fundamental de edição. Transformar décadas de acontecimentos, milhares de fotografias, lembranças e depoimentos em uma narrativa cinematográfica exigiu muito mais do que organizar imagens. Foi necessário encontrar uma maneira de fazer o espectador compreender a dimensão humana de quem estava por trás daquela câmera.

Ao lado dele, Itamar Aguiar, Milton Cougo e Amalia Antúnez completaram um trabalho coletivo que atravessa a fronteira entre Brasil e Uruguai para tocar em uma questão universal: o direito de uma sociedade conhecer a própria história.

Há algo especialmente emocionante nessa sequência de acontecimentos.
Aurelio González preservou fisicamente as imagens quando elas corriam o risco de ser destruídas. Quase meio século depois, um grupo de profissionais decidiu realizar um segundo salvamento: transformar aquela experiência em cinema para protegê-la de um inimigo diferente, mas igualmente poderoso — o esquecimento.

O documentário estreou em julho, em Montevidéu. A exibição, realizada no auditório do PIT-CNT, terminou sob longos aplausos. Era o reconhecimento ao fotógrafo, mas também aos realizadores que decidiram devolver ao público uma história que pertence à memória coletiva do Uruguai e da América Latina.

Agora será a vez do público brasileiro

A estreia em Porto Alegre integra uma edição especial do Cine-Debate promovido pelo Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) e pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários).

A iniciativa conta com apoio da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul (Arfoc-RS), Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) e Rel-UITA.

Para Rodrigo Ziebell, presidente da Arfoc-RS, entidade que completa 70 anos, a trajetória de Aurelio representa a força da fotografia como instrumento de preservação da memória e reforça a importância do trabalho desenvolvido por repórteres fotográficos e cinematográficos.

A presidenta do SindJoRS, Laura Santos Rocha, destaca outra dimensão do acervo: cada imagem preservada tornou-se também um testemunho contra o esquecimento e um registro da resistência diante da violência de Estado.

No dia seguinte à estreia brasileira, 1º de setembro, Aurelio González estará na sede da Associação Riograndense de Imprensa, em Porto Alegre, para uma roda de conversa e entrevistas.

Será uma oportunidade rara de estar diante de um homem que, aos 94 anos, carrega consigo não apenas lembranças de um período histórico. Carrega a experiência concreta de ter percebido, em um dos momentos mais difíceis de seu país, que fotografias precisavam ser protegidas porque um dia seriam necessárias para contar o que havia acontecido. E foram.

A câmera de Aurelio registrou a história. Sua coragem ajudou a salvá-la. Agora, o trabalho de Itamar Aguiar, Marco Villalobos, Milton Cougo, Zé Carlos de Andrade e Amalia Antúnez garante que uma nova geração possa conhecê-la.

Primeiro, foi preciso esconder 70 mil negativos para que a ditadura não apagasse a história. Décadas depois, foi preciso fazer um filme para que o tempo não a levasse ao esquecimento.

Foto: Karen Porley