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Brasil | TRABALHO | SOCIEDADE

Com o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, sobre a redução da semana de trabalho

“A maior conquista dos trabalhadores em 40 anos”

A decisão da Câmara dos Deputados do Brasil de reduzir a duração da semana de trabalho de seis para cinco dias é uma das vitórias mais importantes da classe trabalhadora do país nos últimos quarenta anos, afirmou À Rel o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes.

Daniel Gatti

2 | 6 | 2026

A reforma ainda não está consolidada. Falta superar o obstáculo do Senado, onde os setores mais conservadores são particularmente fortes.

“A direita e a extrema direita estão se mobilizando para tentar adulterar a reforma” na câmara alta, impulsionando, por exemplo, a definição de uma jornada de trabalho “flexível”, negociada direta e individualmente entre trabalhadores e empresários.

“Todos sabemos que, se esse tipo de ‘negociação’ for estabelecido, será a consagração da injustiça, porque a relação entre trabalhadores tomados individualmente e empresários é extremamente desigual”.

De toda forma, a decisão da Câmara dos Deputados já representa um “grande passo” no sentido da melhoria da vida cotidiana dos trabalhadores e das trabalhadoras, destacou Antunes.

Acostumados à escravidão

Foi preciso superar a resistência de classes proprietárias acostumadas a relações do tipo casa grande-senzala com seus trabalhadores. “Não esqueçamos que no Brasil a escravidão foi abolida há relativamente pouco tempo e durou mais de quatro séculos”.

“Diziam que passar de uma semana de seis dias de trabalho para outra de cinco aumentaria o desemprego e provocaria uma enorme perda de produtividade. São todas mentiras, como já foi comprovado em outros países”, sustentou o sociólogo, professor da Universidade de Campinas, que ao longo das últimas décadas se especializou no mundo do trabalho e em suas crises.

Não existe apenas no Brasil uma grande quantidade de trabalhadores e trabalhadoras submetidos a condições laborais análogas à “velha” escravidão, por exemplo nas zonas rurais, mas também outros regidos por formas de “escravidão moderna”, como aqueles que trabalham em plataformas digitais.

“São muitos milhões de homens e mulheres que trabalham mais de 40 ou 44 horas por semana e até mais, como acontece com os entregadores, falsamente assimilados a trabalhadores autônomos”.

“A expansão do trabalho em plataformas, um fenômeno universal, é uma forma de escravidão que precisa ser combatida”, destacou Antunes.

Outro modo de vida

A reforma aprovada na Câmara dos Deputados permitirá “melhorar as condições de saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras, facilitará que estudem, moderará o desgaste que sofrem. Dará um pouco mais de sentido às suas vidas, permitirá pensar, por exemplo, algo que os patrões não querem que façam. Nada pode ser feito com apenas um dia de descanso”.

“Agora será preciso avançar para uma jornada de quatro por três, de quatro dias de trabalho por três de descanso, como está sendo proposto em vários países. Isso é perfeitamente possível”, destacou o autor de Trabalho e capitalismo, Os sentidos do trabalho, O privilégio da servidão, Adeus ao trabalho?, entre numerosas obras sobre essa problemática.

“O que ficou demonstrado mais uma vez é que é possível reduzir o despotismo fabril, que se pode lutar contra o despotismo do algoritmo e pensar em outro modo de vida”, concluiu.

Ricardo Antunes | Foto: Giorgio Trucchi

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