Em 2025, o governo federal resgatou 2.772 pessoas de condições análogas à escravidão no Brasil, um aumento de 26,8% em relação a 2024.
Amalia Antúnez
3 | 2 | 2026

Foram realizadas 1.594 fiscalizações, que garantiram mais de R$ 9 milhões em verbas rescisórias e resultaram em R$ 41,8 milhões em multas. Pela primeira vez, a maioria dos resgates ocorreu no meio urbano (68%), superando o meio rural.
O ano marcou também os 30 anos do reconhecimento oficial do trabalho escravo contemporâneo no país. Desde então, mais de 65 mil trabalhadores já foram resgatados, com R$ 157 milhões pagos em verbas rescisórias desde 2003, quando passou a existir o seguro-desemprego específico para trabalhadores resgatados.
Em 2025, o Brasil registrou o maior número de denúncias da série histórica: 4.515 denúncias de trabalho escravo e condições análogas, incluindo casos de trabalho infantil, jornadas exaustivas, condições degradantes, servidão por dívida e restrição de liberdade.
Os setores com mais resgates foram obras de alvenaria, administração pública, construção de edifícios, cultivo de café e extração de materiais para construção. Mato Grosso liderou em número de trabalhadores resgatados. O perfil das vítimas é majoritariamente de homens (86%), entre 30 e 39 anos, pretos ou pardos (83%), com baixa escolaridade e concentração no Nordeste.
A Inspeção do Trabalho atua na fiscalização, no resgate das vítimas, na cobrança administrativa dos empregadores, na aplicação de multas, na inclusão de infratores na chamada “lista suja” e na concessão do Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado (SDTR), pago em três parcelas de um salário mínimo. Além disso, os trabalhadores são encaminhados à rede de assistência social e a outras políticas públicas.
Apesar dos avanços, há preocupação para 2026, com alertas de auditores sobre um possível enfraquecimento da fiscalização. O Ministério do Trabalho afirma que as ações continuam. O relatório destaca que a erradicação do trabalho escravo depende de uma atuação integrada do Estado e da sociedade civil.
Um caso emblemático é o de Sônia Maria de Jesus que veio à tona em 2023, após uma denúncia anônima ao Ministério Público do Trabalho (MPT), e tornou-se o foco de uma campanha internacional.
Isso porque, depois de dois meses de ser resgatada da casa do desembargador Jorge Luiz Borba por auditores fiscais do trabalho, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) revogou a decisão de resgate e autorizou a volta dela à casa dos seus algozes.
Nos registros do combate moderno ao trabalho escravo, iniciado em 1995, é a primeira vez que ocorre um "desresgate", termo que passou a ser usado pelo MPT.
O caso Sônia escancara as contradições estruturais do combate ao trabalho escravo no Brasil. Mulher negra, com deficiência e submetida por décadas ao trabalho doméstico forçado, Sônia reúne características que historicamente tornam vítimas invisíveis, sobretudo em contextos urbanos e dentro de residências de famílias influentes.
Em um país que bate recordes de denúncias e que reconhece oficialmente, há 30 anos, a existência do trabalho escravo contemporâneo, o caso Sônia expõe que a erradicação dessa prática não depende apenas de números ou operações, mas de vontade política, compromisso do Judiciário e enfrentamento direto das desigualdades raciais e sociais.
Sem isso, o risco é que o Brasil avance nas estatísticas, mas retroceda na garantia efetiva de justiça para as vítimas mais vulneráveis.

