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Com Paulette Furacão, ativista trans

Queda de braço contra a pirâmide de discriminação

Educadora social e primeira mulher trans a ocupar um cargo público no estado da Bahia, Paulette é, além disso, uma incansável militante social com destaque no combate ao tráfico de pessoas, na luta pela promoção da inserção no mercado de trabalho dos jovens, sendo também co-organizadora da primeira conferência estadual LGBT, sigla que, em sua opinião, não precisa incluir mais letras, pois não agrega nada, gerando só confusão. Nesta entrevista conta, com leveza e entre risos, seu périplo como ativista, o qual, segundo seu ponto de vista, daria um livro ou um filme.

-Conte-me um pouco de sua vida.
-Costumo dizer que minha vida foi bem emocionante, tão grande quanto a minha hiperatividade. Meu ativismo social não se reduz ao movimento LGBT. Também trabalho bastante na área dos direitos humanos.

Na minha vida há também a presença muito forte de minha comunidade, uma das mais estigmatizadas, a Comunidade Nordeste De Amaralina, em Salvador. Faço parte dessa pirâmide de discriminação.

Desde muito jovem aprendi sobre meus direitos e os de meus próximos. Em que pese eu ter me freado em alguns aspectos, minha transexualidade não me impediu obter certas conquistas naturais.

Houve um projeto que me ajudou muito em minha juventude, “Onda Jovem”. Um projeto de teatro promovido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi). Ali, eu desenvolvi a tarefa de multiplicadora da comunidade afro.

Nessa época já discutíamos sobre a diversidade, a identidade de gênero, o respeito ao meio ambiente e aos recursos naturais. Isso me marcou positivamente para a tarefa que iniciei depois.

Devo reconhecer que em minha trajetória contei com pessoas que me apoiaram para que, apesar de ser trans, negra e de uma comunidade marginalizada, pudesse seguir adiante.

Sempre, a partir da ótica do respeito, pude conquistar, desde muito jovem, coisas que outras mulheres trans não puderam, dentro desta arte do transformismo, como por exemplo, o acesso ao trabalho vinculado aos projetos do governo.

Conquistei o reconhecimento de minha identidade de gênero, de meu trabalho na luta pelos direitos não só da comunidade LGBT, mas pelos direitos humanos em geral.

Isso me permitiu desenvolver projetos de inclusão no mercado de trabalho para jovens, em parceria com mais de 70 empresas particulares. Por tudo isso, eu me sinto muito respeitada.

Sair do quadrado
“É possível transformar o destino reservado aos trans”

-O grupo de jovens coordenado por você era aberto a todos ou só participavam garotos e garotas LGBT?
-Se tratava de um grupo aberto a todos e eu fiz a coordenação sendo Paulette.

Foi uma experiência diferente porque antes eu me isolava muito. Não me identificava com o que estava estabelecido para o nosso grupo. Em primeiro lugar, a prostituição, que pude evitar.

Depois, fiz faculdade e também consegui emprego num setor onde não é comum a inclusão de pessoas trans. Eu me converti na primeira conselheira trans de direitos humanos do estado da Bahia, e na primeira gestora pública em trabalhar com a agenda de direitos da comunidade LGBT para sete municípios.

-Para você, o Brasil evoluiu em termos de políticas públicas dirigidas à comunidade LGBT?
-Muito. Principalmente, com relação às pessoas trans. São políticas relativamente novas, pois datam de 2014. A partir daí começamos a sair parcialmente da invisibilidade.

Já em 2008, com a realização da Conferência Nacional LGBT, obtivemos uma visibilidade mais intensa e começamos a nos organizar como um movimento de ativistas e militantes.  

A partir de então, passamos a trabalhar coordenadamente entre os diferentes estados.

Em 13 anos, conseguimos avançar bastante, principalmente no debate sobre assuntos que nos envolvem como grupo, como a categorização de várias fobias: a transfobia, a lesbofobia, a homofobia e, a partir daí, construímos políticas públicas específicas para essa população mais vulnerável.

Atualmente, esta questão está sendo debatida em espaços institucionais como as escolas públicas, o que é muito importante, porque são a base para podermos transmitir conhecimento.

-Só que agora estão insistindo para que ser gay seja considerado uma doença…
-(Risos). É, isso é terrível. Em setembro passado, um deputado da bancada evangélica propôs a denominada “cura gay”, que autoriza psicólogos a “tratarem” a homossexualidade como uma patologia.

Este absurdo faz parte das estratégias dos oportunistas políticos patrocinados pelos meios de comunicação e por interesses individuais. O nosso movimento deve ter também suas próprias estratégias e entender que há políticos que vivem deste tipo de polêmicas eleitoreiras.

Aí é que ficam claras tanto a carência de políticas públicas efetivas por um lado, como a discriminação fortemente enraizada por outro.  

Apesar da fama de país acolhedor, o Brasil é sexista, LGBTfóbico, racista e classista.

Vivemos na ilusão de país da diversidade, mas é só uma fantasia, porque nossa base social é fortemente conservadora e preconceituosa.

As duas caras de um movimento
Avanços e contradições

-Por que para você o movimento LGBT teve um sucesso tão meteórico?
-Porque o movimento percebeu que tinha que traçar um caminho de unidade coordenada.

O trabalho realizado em parceria com outras organizações sociais propiciou a criação e execução de novas políticas, tanto que o próprio símbolo de nosso movimento, a bandeira arco-íris, representa um grupo de pessoas reivindicando melhor qualidade de vida, equidade de direitos e principalmente um retorno social.

-Dentro do movimento há sinais de segmentação?
-Infelizmente, em nosso movimento também vemos reprodutores de violência. É triste pensar que sendo o grupo emblema da equidade, reproduzimos a discriminação, a invisibilidade de outros seres humanos. É como avançar e logo depois voltar ao ponto de partida.

As políticas públicas dirigidas à coletividade LGBT não são aplicadas com equidade dentro deste grupo: com relação às questões raciais ou religiosas, persiste a metadiscriminação

Há certas políticas que abrangem a população LGBT branca e deixam de lado os negros e as negras; ou pensam nas lésbicas brancas e magras, mas não nas negras e gordas.

Há um conceito que eu gostaria de colocar aqui: a ideia de pós-humanismo.

Debater e construir para a diversidade e não para o individualismo. Esse é o movimento pós-humano, porque a essência do ser humano é estar com outros humanos.

Ainda que queiramos estar sós, é antropologicamente impossível, sempre precisaremos de alguém mais.

-O Brasil registra um índice altíssimo de mortes violentas contra a comunidade LGBT, podendo mesmo ser o mais alto do mundo. Qual, para você, seria o motivo destas estatísticas?
-Não sei se o Brasil seria o primeiro deste triste ranking, porque conseguimos gestar um movimento muito grande, e isso não acontece na Rússia, ou em alguns países europeus, ou mesmo na maioria dos países africanos, por exemplo.

Com relação às mortes violentas, grande quantidade é por LGBTfobia. Para muitos somos corpos desprezíveis, corpos que se forem mortos farão um favor à sociedade.

Também acho que esta violência está mais controlada porque geramos um movimento que a repudia, principalmente nas redes sociais. Ao ficar mais visível, fica mais fácil de combater.

Mas que ela gira, gira!
Motivos para a esperança

-Você pode destacar duas políticas públicas que tenham incidido positivamente na comunidade LGBT?
-O casamento igualitário foi um dos grandes avanços porque com ele conseguimos dinamitar a tradicional família brasileira que está muito vinculada a certo setor político ultraconservador. O outro avanço foi o de as pessoas trans poderem usar seu nome social.

-Conta-me alguma experiência de sua vida como trans, que você ache fundamental.
-A meu ver, o curso para trans e travestis foi algo que saiu do estereotipado. Eu teria gostado de documentá-lo.

Promover por meio da rede um curso de auxiliar administrativo cujo requisito excludente fosse ser transexual ou travesti gerou uma agitação num setor da população que tem muito baixo acesso a cursos educativos de qualidade.

Garantir uma bolsa alimentação em paralelo e ver que as meninas se formavam com esse ar de dignidade, que estava aí certificado em seu diploma, isso eu levarei sempre comigo e é o que me faz acreditar e continuar com este trabalho dia a dia.

A maioria das estudantes formadas estão hoje inseridas no mercado de trabalho ou em universidades. E isto é um motivo de orgulho.

-Porque você escolheu estudar direito? Para ser promotora?
-Acredito que tantas ligações denunciando casos de ódio contra os LGBT me fizeram querer tomar o lado legal do assunto. Fui gostando de defender o movimento a partir da minha prática diária.

-É muito interessante que você só mencione experiências positivas.
-Pois é. Não dá para me colocar no lugar de vítima, porque fui uma pessoa de sorte em vários aspectos. Tenho uma família que me acolhe e aceita.

Devemos nos focar nas coisas que queremos mudar, sabendo quais são possíveis de mudar.

O direito ao reconhecimento de nossa identidade de gênero na hora de sermos atendidos nas instituições públicas ou privadas é fundamental. Fazemos parte desta sociedade e somos contribuintes. Como tais, exigimos um retorno pelo que fazemos.

Quando me sinto cansada, lembro uma frase maravilhosa que um garoto gay me disse uma vez quando eu me queixava de meu cansaço: “teu cansaço é nosso descanso”. Aí entendi plenamente o enorme tamanho de minha responsabilidade.

Hoje podemos falar, gritar, beijar, abraçar os nossos seres queridos sendo quem somos e isso não é pouca coisa. Deu-se uma transformação social positiva, fruto de muito trabalho e de muita luta prévia.

-Você quer dizer alguma coisa mais?
-A meu ver é importante compreendermos o nosso papel como seres humanos, para podermos sair de nossa zona de conforto e combater a discriminação e lutar pelos que a sofrem.

Como trans, eu tive que sair de minha zona de conforto, nunca permiti que minha transexualidade me impedisse de cumprir com o meu destino, com a minha vida.

O modelo agora é o da diversidade e precisamos nos despojar da vaidade individual para juntos construirmos uma sociedade melhor, mais justa e igualitária.