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“Quanto mais pedimos por justiça, mais indiferença recebemos...
Em Montevidéu,
Brasil
AMBIENTE
Com Claudelice Santos
IV Ato em memória a Zé Claudio e Maria
“Quanto mais pedimos por justiça, mais indiferença recebemos”
O Brasil está dando carta branca para o extermínio dos extrativistas, povos indígenas e quilombolas
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Foto: Felipe Milanez
Há quatro anos Zé Claudio e Maria foram assassinados, os mandantes continuam soltos, ameaçando quem se interpuser em seus caminhos. A polícia dá as costas aos pedidos de ajuda dos ameaçados de morte. A palavra de ordem do governo é abandono. Essa é a denúncia de Claudelice Santos, irmã e cunhada dos Heróis da Floresta, que hoje, em entrevista à Rel, espera divulgar o IV Ato não só em Memória do casal de extrativistas, como em defesa das florestas brasileiras e dos mais desprotegidos e exterminados impunemente e historicamente na “pátria amada” Brasil.
-O que vocês buscam com este IV Ato, previsto para o próximo dia 24 de maio?
-Dizer não à impunidade. Há quatro anos, Zé Claudio e Maria foram assassinados e o Zé Rodrigues, um dos mandantes, continua solto, caminhando livremente e ameaçando quem ele bem entender, principalmente a nossa família.  

Ele é considerado foragido pela justiça, mas há um ano está livre, quando devia estar preso.

Até agora a polícia não enviou o mandato de prisão dele. E quando vamos à polícia avisar que ele está lá nas nossas terras, nos ameaçando, a polícia simplesmente não faz nada.

Parece que quanto mais pedimos por justiça, mais indiferença recebemos.

- Por isso o tema é “transformando o medo em esperança”?
-Claro. Porque o que acontece conosco acontece com todas as pessoas que estão na lista de ameaçados de morte, que a CPT divulga ano após ano. E tem muito mais gente querendo nos matar.

Por isso eu não posso ficar lá. Por causa da falta de justiça, da sua morosidade e de um Estado que dá carta branca para matar, eu tive que sair da minha casa. E quem mora lá sofre pressão psicológica diariamente.

Matam nossos cachorros, atiram perto de nossas casas. Quando escurece, já temos que estar em casa, com as janelas e portas fechadas. Isso não é vida.

E a culpa é do governo que não executa a lei e que nega proteção e assistência às famílias ameaçadas de morte.

-E por que negam essa proteção?
-Porque alegam que não temos provas. Ou seja, a gente tem que tirar uma foto do pistoleiro apontando uma arma para você para eles acreditarem.

-Então, as mortes anunciadas do Zé Claudio e da Maria não serviram como exemplo?
-Não! O Zé Claudio fez mais de 30 boletins de ocorrência avisando que iam ser mortos! O Estado jamais foi ver o que estava acontecendo.

Deram as costas para eles, que foram covardemente assassinados.  E ainda hoje a justiça continua não fazendo nada.

Eu estou aqui na região de Santarém, onde a pressão é muito grande, porque vão fazer uma hidrelétrica aqui.

A população foi consultada? Não, não foi consultada. Vai acontecer chacina? Vai. E que prevenções contra essa chacina foram tomadas? Nenhuma.
O Brasil dá carta branca aos pistoleiros
Da “lista de extermínio” ninguém sai vivo

O fato é que o Brasil está dando carta branca para o extermínio dos extrativistas, povos indígenas e quilombolas. Os fazendeiros com dinheiro pagam os pistoleiros para matarem quem eles quiserem.

O assassinato do Zé Claudio e da Maria foi mapeado pela CPT, e sabemos hoje que são vários os mandantes, vários e grandes fazendeiros, todos soltos.

-Como as pessoas conseguem sair dessa lista?
-As pessoas só saem dessa lista mortas. Se você entrar nessa lista, vai sair dela, sim, mas morto. E por quê? Porque o Brasil historicamente sempre deu carta branca para esse tipo de assassinatos, veja o caso da Dorothy!

O Brasil é um país totalmente omisso às nossas denúncias e os governos são absolutamente responsáveis por todas essas mortes anunciadas.

Ser ambientalista nesse país é querer morrer. E isso é um reflexo de uma longa postura de país que extermina aqueles que incomodam, gerando um histórico de violências, de assassinatos. E o governo joga tudo isso para debaixo do tapete.

Aliás, quando falamos com o Congresso, eles só fingem! Fingem que nos escutam, fingem que vão fazer alguma coisa, mas de prático não acontece absolutamente nada.

-Por que vocês escolheram como lema “É tempo de destruir os sistemas que destroem a terra”?
-Queremos mostrar que não concordamos com as decisões tomadas pelo governo com relação ao meio ambiente e às comunidades de extrativistas, cuja palavra é uma só: abandono.

O cenário é de desolação. Floresta em pé só mesmo no lote do Zé Claudio e da Maria. É aí que a pressão aumenta sobre nós. E não é uma área muito grande, é até pequena.

A pressão contra as nossas terras é muito forte e, por isso, precisamos da proteção do Estado. Está chegando num ponto onde estamos perdendo o controle da situação.

Lutamos por um processo de libertação da terra, contra a poluição, o desmatamento, porque o governo, em nome de um falso “progresso”, deixa as comunidades cada vez mais pobres, excluídas e doentes.

A hora de lutar pela preservação do meio ambiente é agora!

Rel-UITA
22 de maio de 2015