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Cabildo Abierto e o retorno daqueles que nunca foram embora

Um filme de terror

As últimas eleições uruguaias marcaram, entre outras coisas, o surgimento de um "partido militar" que em poucos meses conseguiu captar mais de 11% do eleitorado e que inclui, em suas fileiras, violadores de direitos humanos e nostálgicos da última ditadura.

Chamado Cabildo Abierto (CA) e liderado pelo ex-comandante-em-chefe do Exército Guido Manini Ríos, a nova formação política faz parte de uma coalizão de cinco partidos que assumirá o governo a partir de 1º de março, quando Luis Lacalle Pou ocupar a presidência do país.

CA já tem vários cargos garantidos no próximo gabinete ministerial e seu peso será decisivo no parlamento para garantir a coalizão das maiorias necessárias para a aprovação de leis.

Cabildo Abierto não é qualquer partido.

É, talvez, o mais parecido ao que, na história uruguaia, podemos chamar de um «partido militar» e seu líder não hesitou, durante a campanha eleitoral, em se dirigir aos militares da ativa, como se ainda fosse o seu comandante, promovendo a circulação de mensagens de organizações paramilitares e de oficiais da reserva ou ativos, contendo ameaças de morte aos militantes de organizações de direitos humanos ou grupos de esquerda.

CA expulsou de suas fileiras alguns de seus integrantes por terem feito em público a saudação nazista e outros por terem usado o Facebook para formar um esquadrão da morte, chamado a «limpar do país os criminosos e esquerdistas.»

O partido CA considerou esses casos como «exceções» ou «atos de loucura». Seus parceiros, da futura coalizão governamental, interpretaram da mesma forma.

Outro oficial militar da reserva que pretendia ser candidato a um cargo eletivo pelo partido foi condenado, há algumas semanas, à prisão domiciliar por gravar um vídeo, veiculado nas redes sociais, onde aparece ameaçando todos os esquerdistas que “se salvaram de 1973”, isto é, durante o golpe de Estado, e que “desta vez já não vão conseguir escapar”.

«Elementos isolados»

Manini Rios disse desconhecer que este homem tivesse vínculos com sua organização.

Milita abertamente pelo partido Cabildo Abierto – e foi candidato a deputado – Eduardo Radaelli, um tenente-coronel da contrainformação da reserva que esteve envolvido no assassinato no Uruguai, em 1992, em cumplicidade com militares chilenos, do bioquímico Eugenio Berríos, um ex-agente da ditadura de Augusto Pinochet que conhecia segredos do regime e em quem seus superiores não confiavam.

Outra das referências do grupo é Daniel Salinas, um médico que trabalhou por anos no Hospital Militar e que, segundo documentação publicada pelo jornal El Observador, foi sócio de um psiquiatra acusado por dezenas de ex-presos políticos de ser responsável por sofisticados sistemas de tortura nos centros de detenção da ditadura.

Salinas foi confirmado, nesta segunda-feira, pelo presidente eleito Luis Lacalle como futuro ministro da Saúde Pública.

“Ele está sendo condenado por suas vinculações. É inadmissível.”, assim o defendeu Manini.

Um perfil

«Não se pode falar de exceções», afirmou Gerardo Caetano, historiador e analista político. Quando um partido “atrai uma série de pessoas com um perfil determinado, é esse perfil que definirá o partido».

Especialmente, quando o apoio ao Cabildo Abierto é absolutamente explícito por parte de instituições como o Centro Militar, o Círculo Militar e a Cooperativa de Poupança e Crédito dos Oficiais das Forças Armadas (CAOFA). Os três organismos nucleiam militares ativos e da reserva que, em sua ampla maioria, defendem sem disfarce os procedimentos da ditadura, isso para não mencionar quando também estão diretamente envolvidos em crimes de lesa humanidade.

O coronel da reserva Carlos Silva Valiente, que preside o Centro Militar e a CAOFA, foi candidato a deputado pelo partido Cabildo Abierto.

A revista da CAOFA, Nación, publicou propaganda eleitoral do partido dirigido por Manini e um de seus articuladores dedicou um poema de delicada finesa ao ex-comandante em chefe do Exército: «Salve Guido e seus valores o nosso rico patrimônio, tirando o nosso povo das mãos de um demônio.» 

No meio de comunicação Nación, aparecem matérias regularmente justificando o conteúdo e a forma da  ditadura, «explicam» as mortes na tortura, exaltam a doutrina de segurança nacional, clamam a “concluírem essa luta para remover o comunismo do Uruguai«, localizam os movimentos de defesa dos direitos humanos e os grupos de feministas entre os «novos inimigos a se combater».

Nación uma vez exaltou o Foro Liberdade e Concórdia, uma estrutura que reuniu até meados desta década várias gerações de oficiais e suboficiais das Forças Armadas e grupos e indivíduos de extrema-direita nacionais e estrangeiros.

Documentação interna divulgada pelo jornalista Roger Rodriguez revelou que o Fórum operava em vários níveis, desde defender seus «camaradas» acusados de violações de direitos humanos até o plano estritamente militar.

Quando não tinham partido próprio, muitos de seus integrantes militavam em formações políticas da direita tradicional, especialmente em setores ultraconservadores do Partido Nacional, hoje liderado pelo presidente eleito Lacalle Pou, ao qual Irene Moreira, esposa de Manini Ríos e futura ministra da Habitação, Ordem Territorial e Meio Ambiente pertencia até pouco tempo.

«Sabemos quem você é»

Pouco antes do segundo turno das últimas eleições, no final de novembro, o paramilitar Comando General Pedro Barneix reapareceu.

O grupo surgiu em 2017, quando ameaçou de morte 13 personalidades, a maioria uruguaias e estrangeiras defensores dos direitos humanos, entre elas o brasileiro Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul e assessor de direitos humanos da Rel UITA

Para retornar ao ringue, o Comando emitiu um comunicado no qual ordenava todos os membros das Forças Armadas a votarem «em Luis Lacalle Pou para presidente com o apoio do nosso general do Exército Guido Manini Ríos”.

O comunicado advertia os soldados de que os conheciam um por um e que se não obedecessem a esta «ordem», saberiam onde encontrá-los e lhes dariam “o tratamento devido aos traidores».

«Começamos a voltar», concluía o comunicado.

A Justiça ainda não descobriu nada sobre este comando nem associou o seu surgimento e reaparecimento com vários fatos concordantes que ocorreram em ambas as ocasiões, nem mesmo com eventuais vínculos com o partido Cabildo Abierto ou com as declarações de alguns dos membros do partido ou pertencentes a estruturas que mostram ter certas afinidades com o partido.

Na sombra da asa

Existe uma trama que os vincule?

Krischke e a pesquisadora italiana Francesca Lessa, também ameaçada pelo Comando, sugerem que dá para pensar sobre isso.

«É muito forte o que está acontecendo no Uruguai.  Está claro, mais uma vez, que todos estes que aparecem agora reivindicando a ditadura, ameaçando as pessoas e dizendo que eles estão voltando, estavam lá. Tolerou-se e permitiu-se o seu crescimento”, disse Krischke.

“Isto demonstra claramente as consequências da impunidade. A jurisprudência internacional disse em muitas ocasiões que a impunidade cria as condições para que novos crimes sejam cometidos», disse Lessa.

«Apesar de nossas advertências, ninguém – nem a justiça nem outras autoridades competentes – considerou esta ameaça com a devida seriedade nos últimos três anos. O Comando ganhou coragem graças a essa impunidade”.

Krischke também lembrou que alguns dos protagonistas desses ataques, como Manini Ríos e muitos outros, cresceram graças aos governos que deveriam tê-los dado um basta.

Manini foi nomeado pelo atual Executivo do partido de centro esquerda Frente Ampla e foi recebido pelo ex-ministro da Defesa do anterior governo Eleuterio Fernández Huidobro.

Outros minimizaram sua importância ou sua capacidade de tecer redes além da «família militar», por exemplo, com setores populares, atraídos pelo discurso deste partido, conhecido exatamente por bater numa única tecla, a da mão de ferro contra a delinquência.

Essas pessoas se fortalecerão ainda mais, obviamente, se forem legitimadas como atores «normais» e se houver um governo aliado a eles, afirma Krischke e observa que «as agendas sociais e políticas prometidas e descumpridas pelos chamados partidos progressistas explicam o porquê de prosperarem personagens como Jair Bolsonaro”.