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Apicultores contra agrotóxicos da morte

Pelo mel que dá vida

Em uma década, mais de 1.500 apicultores, dos 4.500 no Uruguai, abandonaram a atividade, principalmente porque as abelhas estão morrendo devido ao uso indiscriminado de agrotóxicos. Além disso, o mel contaminado já não pode ser exportado para mercados que exigem uma produção "natural".

«Eu tenho 65 anos de idade e me dedico a isso há 40. Não aguento mais.

O estado não nos protege, porque preferiu apostar nos grandões e num modelo de produção não-sustentável”, disse um apicultor que participou, dias atrás, de uma assembleia realizada em Libertad, no departamento de San Jose, a oeste de Montevidéu.

A reunião, convocada pela Associação dos Apicultores do Uruguai (AAU), agrupou mais de 300 produtores, para os quais o setor atualmente vive «a pior crise de sua história«.

Os apicultores uruguaios sofrem os mesmos problemas que os apicultores brasileiros e os de outros países da América Latina: também viram com seus próprios olhos morrerem milhares e milhares de abelhas.

Principal culpado: um modelo produtivo baseado no uso intensivo de agrotóxicos, como os inseticidas e herbicidas.

Pesquisas realizadas pela Universidade da República, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária e com o Instituto de Pesquisas Biológicas Clemente Estable, citadas pelo jornal La Diaria, informam que a cada ano o Uruguai perde de 20 e 30 por cento das suas colmeias.

Maldito glifosato

A fumigação indiscriminada com agrotóxicos é uma das principais causas da assustadora mortandade de abelhas.

Tradicionalmente, a maioria da produção de mel uruguaio era exportada, e muitos de seus mercados estavam em países europeus altamente exigentes.

Um deles era a Alemanha, que comprava em média 8.000 toneladas por ano. Em 2018 só compraram mil toneladas, porque a maior parte do mel exportado apresentava vestígios de glifosato.

«Os resíduos do glifosato na produção uruguaia estão bem acima do máximo permitido pela União Europeia«, disse Ruben Riera, presidente da AAU.

Mas não há controles, ou são muito escassos, e o Ministério da Agricultura (MGAP), que defende este modelo produtivo viciado em agrotóxicos, pouco faz para defender uma atividade que é fonte de trabalho para os agricultores familiares.

Números que não fecham

Entre 2011 e 2017, quase 600 denúncias de apicultores foram apresentadas ao MGAP por como o uso indevido de pesticidas afeta suas colmeias.

O panorama (sombrio) para o setor se une à concorrência desleal de países como a China, que produz mel adulterado para vendê-lo a preços baixos.

Na Assembleia da cidade de Libertad foi dito que os apicultores vendem o quilo do mel por 1,20 dólar, 0,60 centavo abaixo de custo de produção

«Os números não fecham», disse Riera. A AAU solicitou subsídios ao governo e a proibição da utilização de produtos à base de glifosato, entre outras medidas.

Um projeto contra o modelo defendido pelo governo

Um projeto de lei que acaba de ser apresentado abrange essas exigências e sugere a criação de um Fundo de Desenvolvimento da Apicultura.

O texto, elaborado pelos deputados Darío Pérez, da Frente Ampla, partido do governo, e Eduardo Rubio, da Unidade Popular, também propõe proibir a produção, a importação, a venda e o uso de quatro categorias de agrotóxicos, normalmente usados no Uruguai, alguns dos quais já não podem ser utilizados na Europa.

Embora saibam que encontrarão resistência mesmo na coligação central de esquerda governante, Rubio e Pérez estão confiantes que o seu texto será aprovado pelo Parlamento.

«Estamos enfrentando um modelo produtivo baseado no agronegócio e a serviço das multinacionais. Este projeto é uma pequena medida em relação ao dano global produzido por este modelo, sendo também um primeiro passo nessa importante batalha», disse Rubio.

“Temos que salvar essa importante produção e os recursos naturais fundamentais para a vida no planeta.»