SOCIEDADE | MULHER

Os custos sociais e econômicos da violência de gênero

A violência de gênero afeta a sociedade inteira, não apenas as mulheres, meninas e adolescentes, tendo efeitos intergeracionais imediatos e de curto prazo. Gerando, inclusive, elevadíssimos custos econômicos.

As consequências e custos da violência têm impactos no indivíduo (para os/as sobreviventes, perpetradores e outros afetados pela violência), assim como no interior da família, da comunidade e da sociedade como um todo, acarretando altos custos para os países.  

A violência contra mulheres e meninas cobra um preço alto, não só por causa do sofrimento não visível e do impacto em sua qualidade de vida e bem-estar, mas também pelos custos que o/a sobrevivente e sua família terão que assumir no tratamento de sua saúde (física ou mental), afetando seu trabalho e finanças. Além disso, existe o efeito disso tudo nas crianças.

Soma-se a isso, uma seleção de dez causas e fatores de risco de incapacidade e morte para mulheres entre 15 e 44 anos, estupro e violência doméstica e de gênero, em todas as suas formas, consideradas com uma incidência superior ao câncer, aos acidentes de trânsito, à guerra e à malária.

Como exemplos de tais custos e consequências temos:
Lesões imediatas como fraturas e hemorragias, assim como doenças físicas de longa duração (por exemplo: doenças gastrointestinais, desordens do sistema nervoso central, dores crônicas).

Doenças mentais, como depressão, ansiedade, desordens de estresse pós-traumático, tentativa de suicídio.

Problemas sexuais e reprodutivos como infecções por transmissão sexual (incluindo o HIV) e outras doenças crônicas; disfunções sexuais; gravidezes forçadas ou não desejadas e abortos inseguros; riscos na saúde materna e na saúde fetal (especialmente em casos de abuso durante a gravidez).

Abuso de substâncias (incluindo álcool).

Habilidades deficientes para o funcionamento social, isolamento social e marginalização.

Morte de mulheres e de seus filhos e/ou filhas (produto de negligência, lesões, riscos associados à gravidez, homicídio, suicídio, HIV e/ou associadas à aids.

Perda de dias de trabalho, baixa produtividade e baixos salários.

Redução ou perda total de oportunidades educativas, de trabalho, sociais ou de participação política.

Desembolsos (individuais, familiares e do orçamento público) para cobrir os gastos em serviços médicos, judiciais, sociais e de proteção.

Se forem consideradas as consequências diretas no curto prazo, as crianças testemunhas da violência têm mais probabilidades de apresentar problemas emocionais e de conduta, um deficiente desempenho escolar, assim como o risco de cometer ou experimentar violência no futuro.

Mais de uma geração afetada
Custos no longo prazo

Os custos e as consequências da violência contra as mulheres duram gerações.

Pesquisas realizadas na Costa Rica, República Checa, Filipinas, Polônia e Suíça revelaram que os meninos que viram o pai empregar violência contra a mãe tinham o triplo de probabilidades de usar violência contra sua parceira no futuro.

As crianças testemunhas de violência doméstica correm um maior risco de sofrerem ansiedade, depressão, baixa autoestima e um rendimento escolar deficiente, entre outros problemas que afetam o seu bem-estar e o seu desenvolvimento pessoal.

Na Nicarágua, 63 por cento das crianças de mães que sofreram violências repetiram de ano pelo menos uma vez e abandonaram os estudos, em média, quatro anos antes que as outras crianças.

A violência contra as mulheres e meninas afeta desfavoravelmente o desenvolvimento humano, social e econômico de um país.

Além disso, dificulta os esforços para a redução da pobreza, com consequências intergeracionais. É por isso que é muito importante dar visibilidade ao assunto e reconhecer que a eliminação da violência contra as mulheres e meninas deveria ser uma prioridade estratégica imprescindível para alcançar o desenvolvimento.

 
Uma prioridade estratégica
Proteger o “capital humano”

A desigualdade e a violência de gênero obstaculizam os esforços dos países para a redução da pobreza.

As mulheres e as meninas representam a metade do capital humano disponível para reduzir a pobreza e alcançar o desenvolvimento.

Entretanto, a violência baseada em gênero compromete os seus direitos fundamentais, a estabilidade social e a segurança, a saúde pública, as oportunidades de formação e de emprego das mulheres, assim como o bem-estar e as perspectivas de desenvolvimento das crianças e das comunidades.

A violência contra as mulheres reduz a produtividade e exaure os orçamentos públicos. A violência contra as mulheres pressupõe enormes custos diretos e indiretos para as sobreviventes e suas famílias, e para o setor público, devido aos gastos em saúde, policiamento, serviços jurídicos e outros gastos relacionados, assim como em termos de perdas salariais e de renda.

De acordo com um estudo feito na Índia, uma mulher perde, em média, cinco dias de trabalho remunerado por cada incidente de violência causada por seu parceiro, enquanto que em Uganda aproximadamente 9 por cento dos incidentes violentos obrigaram as mulheres a perder uma média de 11 dias de trabalho remunerado por ano.

Calcula-se que os custos anuais da violência gerada pelos parceiros e/ou ex-parceiros superaram os 5,8 bilhões de dólares nos Estados Unidos e 1,1 bilhão no Canadá.

Na Austrália, a violência exercida contra mulheres e crianças chega a custar cerca de 11,3 bilhões de dólares anuais. Em Fiji, o custo estimado anual foi de 135,8 milhões de dólares, ou seja, 7 por cento do Produto Interno Bruto.

Só a violência doméstica tem um custo aproximado de 32,9 bilhões de dólares na Inglaterra e Gales.

 
Na escola e no trabalho
Não há lugar livre de violência de gênero

A violência sexual priva as meninas e as adolescentes de receber educação e, portanto, limita as oportunidades e as conquistas educacionais e profissionais futuras.

Em um estudo feito na Etiópia, 23 por cento das adolescentes afirmaram terem sido vítimas de agressões sexuais ou de estupros quando iam para a escola ou dela voltavam para casa.

No Equador, as adolescentes que denunciaram terem sofrido violência sexual na escola identificaram os seus professores como os responsáveis por 37 por cento dos casos.

Na África do Sul, 33 por cento dos estupros de meninas denunciados foram cometidos por um professor.

Muitas dessas meninas e adolescentes agredidas mudaram de escola ou abandonaram os estudos, por não suportarem as represálias sofridas após terem denunciado o estuprador.

A violência compromete a saúde reprodutiva, a saúde materna e a da criança. A violência baseada em gênero limita consideravelmente a capacidade das mulheres de exercerem seus direitos reprodutivos, com graves consequências para a sua saúde sexual e reprodutiva.

Uma de cada quatro mulheres sofre violência física ou sexual durante a gravidez. Isto aumenta a probabilidade de abortos e mortes de neonatos, partos prematuros ou o nascimento de bebês com baixo peso.

Entre 23 e 53 por cento das mulheres vítimas de abusos físicos, causados por seus parceiros durante a gravidez, recebem chutes ou socos no abdômen.

A violência limita o acesso das mulheres ao planejamento familiar, que poderia chegar a reduzir a mortalidade materna de 20 a 35 por cento, por diminuir a exposição das mulheres aos riscos de saúde relacionados com a gravidez.

 
Gravidez não desejada
Uma privação essencial da liberdade

As mulheres que são vítimas da violência costumam ter mais filhos do que elas mesmas desejariam.

Isto não só demonstra o pouco controle que existe sobre as decisões que afetam a sua vida sexual e reprodutiva, como também reduz os possíveis benefícios demográficos da saúde reprodutiva que, segundo se calcula, diminuem a pobreza em 14 por cento.

Existem diversas práticas lesivas que podem comprometer a saúde materno-infantil.

O casamento infantil, que dá lugar a uma gravidez precoce e não desejada, gera riscos que pressupõem uma ameaça para a vida das adolescentes: as complicações relacionadas com a gravidez são a principal causa de mortalidade de adolescentes entre 15 e 19 anos em todo o mundo.

A mutilação genital feminina ou ablação aumenta o risco de obstruções e complicações durante o parto, mortes de neonatos, hemorragias pós-parto, infecções e morte da mãe.

 
Violência e expansão da Aids
Retroalimentação

A violência agrava a pandemia do HIV/Aids.

A violência limita a capacidade da mulher de se proteger do HIV, e as mulheres que são HIV positivas ou que estão com Aids, geralmente são estigmatizadas e agredidas.

As jovens correm um risco muito alto de sofrer violência relacionada tanto com o HIV como por serem mulheres: representam aproximadamente 60 por cento do total dos 5,5 milhões de jovens que vivem no mundo com HIV/Aids.

As mulheres já têm de dois a quatro vezes mais probabilidades que os homens de se infectarem com o vírus da Aids durante as relações sexuais, e este risco aumenta quando são forçadas a fazer sexo ou são estupradas, por serem situações que provocam danos físicos e que geralmente ocorrem sem o uso de preservativos.

Nos Estados Unidos, 11,8 por cento dos novos contágios de HIV entre mulheres maiores de 20 anos, registrados no ano passado, foram devido à violência exercida pelo seu parceiro.

Diversos estudos realizados na Tanzânia, Ruanda e África do Sul permitem concluir que as mulheres que foram vítimas de violência praticada por seus parceiros têm mais probabilidade de contrair o HIV.

Até 14,6 por cento das mulheres da África subsaariana e do sudeste asiático afirmaram que, quando divulgaram serem soropositivas, foram vítimas de violência de seus parceiros, e o medo a esta violência gera uma barreira para a mulher na hora de assumir publicamente essa situação e procurar assistência adequada.

A vida é perigosa para as mulheres e meninas que vivem em bairros pobres ou em favelas.

As mulheres que vivem em zonas urbanas pobres correm um elevado risco de sofrer violência física e psicológica, tendo o dobro de possibilidades em comparação com os homens de serem vítimas de violência, principalmente nos países em desenvolvimento.

Em São Paulo (Brasil), uma mulher é atacada a cada 15 segundos.

No Chile, as perdas econômicas das mulheres como resultado da violência doméstica custam 1,5 bilhões de dólares, isto é, mais de 2 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1996, e na Nicarágua chegam a 29,5 milhões ou 1,6 por cento do PIB nacional em 1997.

Na Guatemala, os custos da violência chegaram ao equivalente a 7,3 por cento do PIB.

Todo este acúmulo de informações “contáveis” deve servir para fazer com que os estados e governos percebam o tamanho dos benefícios de se lutar pela redução da violência de gênero, e para considerarem esta luta estratégica para o desenvolvimento dos países.

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