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Bolsonaro na corda bamba

O irresistível retorno dos militares

“Bolsonaro não governa mais e o Brasil vive desobediência civil", escreveu o colunista Merval Pereira na edição de 26 de março do jornal O Globo. Não é qualquer jornalista ou qualquer meio. Pertencente à rede Globo, O Globo é o jornal mais circulado do Brasil e Merval Pereira é um dos jornalistas mais próximos da família Marinho, dona da rede de comunicação.

O Globo apoiou o golpe de Estado de 1964, manteve laços estreitos com todos os governos militares e foi adversário do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, suas críticas a Bolsonaro podem ser tomadas como um termômetro do que o grande empresariado brasileiro pensa.

Em rigor, o ainda presidente do Brasil, ou «antipresidente», como foi batizado pela jornalista Eliane Brum, nunca esteve em uma posição confortável.

Desde os primeiros meses de 2019, mal assumiu a presidência, foi o vice-presidente Hamilton Mourão, ex-general linha-dura, o responsável por tentar cerzir os desastres diplomáticos causados pela incontrolável verborragia de Bolsonaro.

Merval Pereira argumenta que o presidente “está isolado por escolha própria”. De fato, rompeu com seu próprio partido, o PSL, com o qual chegou à presidência. Rompeu também com o Congresso, com todos os governadores e, se não bastasse, com o principal cliente comercial do Brasil, a China.

Mas o fato mais recente, desencadeado diretamente pela forma banal como o presidente encara essa crise da saúde provocada pelo coronavírus, é o que o Merval Pereira chama de um “movimento de desobediência civil instalado no país”.

Em meados de março, uma onda ininterrupta de panelaços começou nas principais cidades do Brasil, em resposta à minimização presidencial dos impactos do coronavírus.

Bolsonaro disse que a crise “passará em breve”, que é apenas “um resfriado” e que não vê razão para fechar escolas, pois o principal impacto é com aqueles com mais de 60 anos.

Mais bruto ainda: “O brasileiro pula em esgoto e não acontece nada”.

Foi um murro na cara da credibilidade das classes médias urbanas na ciência, nas recomendações de isolamento social da OMS e no que os governos mundiais têm feito.

O barulho dos panelaços

Em São Paulo, por exemplo, os panelaços ocorreram nos mesmos bairros de classe média onde Bolsonaro obteve quase 80% dos votos, há 18 meses.

Na minha opinião, os panelaços alertaram a maior parte do empresariado, da grande mídia e também um setor das Forças Armadas para a gravidade da situação.

Mesmo um meio tão conservador quanto O Estado de São Paulo, próximo às Forças Armadas, em seu editorial de 26 de março, afirmou em tom incendiário: “O presidente parece desejar ardentemente o confronto – com governadores de Estado, com o Congresso, com a imprensa e até com integrantes de seu próprio governo –, de modo a criar um clima favorável a soluções autoritárias.»

O jornal pede aos brasileiros para “desconsiderarem totalmente o que diz o chefe de Estado”, particularmente seu apelo insólito para acabarem com a quarentena e voltarem à «normalidade». Há especulações de que ele possa dissolver o Congresso e instalar um governo ditatorial.

Um dia antes, nesta terça-feira, 25, o jornal Valor Econômico, porta-voz dos interesses financeiros e industriais, ligado à Folha de São Paulo, outro grande meio de comunicação brasileiro, publicou uma coluna assinada pela jornalista Maria Cristina Fernández e intitulada “Carta de renúncia”.

Nela aparece um dado fundamental. Estaria sendo articulada uma “saída elegante” para Bolsonaro, com a qual até os militares estariam de acordo, em troca de anistia aos seus filhos, Carlos, Eduardo e Flávio, conhecidos como 01, 02 e 03.

Surge um general

Os três podem ser acusados de vários crimes perante a Justiça, incluindo o assassinato de Marielle Franco, pelo estreito contato de Flávio Bolsonaro com os assassinos (El País, 9 de fevereiro de 2020).

O grande vencedor desse queda de braço seria o vice Mourão, que dias atrás se distanciou das declarações do presidente sobre o coronavírus, e dessa forma, criou as condições para se converter em seu substituto.

Uma das condições chave foi dada pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, filiado ao partido de centro-direita DEM e um aliado de primeira hora do presidente, ao acusar Bolsonaro de irresponsável e de querer “lavar as mãos e responsabilizar outras pessoas pelo colapso econômico e pela falência de empregos que amanhã venham a acontecer”.

«Um estadista tem que ter a coragem suficiente para assumir as dificuldades«, sentenciou Caiado.

É exatamente o perfil de Mourão. Forte defensor da ditadura militar (1964-1985), Mourão foi exonerado do Comando Militar do Sul, um dos mais poderosos do país, por críticas públicas feitas ao governo de Dilma Rousseff em 2015.

Em 2017, quando Michel Temer governava, pediu uma «intervenção militar» para acabar logo com a corrupção da classe política no Brasil (La Nación, 6 de agosto de 2018).

Em meio à crise, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, divulgou um vídeo dirigido aos militares no qual garante que o combate ao coronavírus “talvez seja a missão mais importante de nossa geração”.

Olhar para trás, para olhar para frente

Os militares, que na década de 1960 consideravam sua principal missão lutar contra o comunismo, agora se prestam a voltar ao poder com a desculpa igualmente precária de «salvar o povo e o Brasil«.

Se a crise política se movesse em direção a um governo presidido pelo General Mourão, seríamos enfrentando um paradoxo: 35 anos de democracia eleitoral levaram ao retorno completo das Forças Armadas ao governo, que já tem mais de cem deles nos altos escalões administrativos.

Seria uma espécie de «governo militar democrático» administrar um «Estado policial digital», um modelo que está sendo bem sucedido para os interesses do 1% mais rico durante esta crise sistêmica.

O desafio, e o problema, é que o Brasil tende a definir tendências no continente.

Trabalhadores e setores populares devem reaprender a lutar em condições de repressão, controle policial-militar da sociedade e precariedade material na vida cotidiana.

Um retorno à década de 1960, quando se organizar envolvia riscos que só podiam ser tratados com fraternidade, solidariedade e integridade ética.