SINDICATOS

Com Alonso Batista dos Santos

“Concentração e estrangeirização da terra favorecem a violência”

-Qual é a plataforma reivindicatória desta Secretaria?
-A questão da reforma agrária é um dos principais componentes. Sempre foi muito importante para o movimento sindical rural, porém agora se tornou um dos mais prementes.

Um dos instrumentos de luta são os acampamentos, utilizados pelos trabalhadores e trabalhadoras para pressionar em prol da concretização da reforma agrária, uma vez que, por via institucional, é bastante difícil ter acesso aos projetos de colonização.

Muitos dos integrantes de nossa base sindical também participam desses acampamentos. A Contag não faz parte da organização, mas sim ajuda e serve de conexão com as municipalidades e com os organismos estatais em geral.

-E o processo de estrangeirização da terra continua?
-Os dados não batem. Há quem diz que dois milhões de hectares estão em mãos de estrangeiros, outros dizem que são 6 milhões, e outros ainda que são 12 milhões. Diferenças gritantes.

O certo é que hoje o Parlamento está estudando um projeto de lei que facilita aos capitais estrangeiros a compra de terras brasileiras.

Esse projeto ainda não prosperou porque há um setor de legisladores, vinculado aos militares, que já entendeu que se vendermos o território nacional aos estrangeiros, de alguma maneira estaremos hipotecando a soberania do Brasil. Se não fosse por isso, já teriam aprovado este como aconteceu com todos os pacotes de reformas e de leis adotados pelo Congresso após o golpe de 2016.

Sem dúvida alguma esta questão é muito preocupante, porque quando falamos de estrangeirização, não é que estejamos dando terras aos refugiados de outros países, mas sim vendendo nosso território para as grandes corporações internacionais, para saciar os interesses do grande capital.

O escandaloso nível de concentração
46 por cento da terra em mãos de 1 por cento
-A alta concentração da terra no Brasil é flagrante e gera também muita violência…
-É certo. Possuímos um triste recorde: 46 por cento das nossas terras estão em mãos de apenas 1 por cento das pessoas. Essa é a média nacional, mas em estados como Mato Grosso essa relação é ainda pior: 87 por cento das nossas terras estão em mãos de apenas 1 por cento da população. Um absurdo.

É um dos fatores que promovem o aumento da violência. A disputa pelos recursos naturais é outra causa concomitante.

Em Mato Grosso, as terras onde estão localizadas as nascentes do rio Paraguai, que forma o bioma do Pantanal, estão em mãos de uma corporação argentina. Os povoadores nem sequer têm acesso ao rio porque esta região é propriedade privada.

Há cinco anos, para poder inspecionar a cultura da soja, chegou às nascentes do rio um grupo de organizadores – entre eles alguns integrantes da Contag – que precisou solicitar a intervenção do Ministério Público.

De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra, estes grandes capitalistas, que acham que podem fazer o que quiserem e que acreditam que parte do país lhes pertence, terminam expulsando os camponeses para as periferias das cidades, reproduzindo a violência.

-Como você avalia a realização de um seminário internacional que analise a questão da violência no campo?
-Esta é uma questão fundamental para a agenda de trabalho da Contag para este período e para o conjunto do movimento sindical.

Uma das propostas para abordar essa questão é precisamente realizando um seminário internacional, porque sabemos que a violência no campo não é exclusividade do Brasil.

Um seminário seria uma oportunidade para dar visibilidade aos conflitos agrários na América Latina e para articular melhor as ações dos grupos que lutam contra a violência no meio rural da região. 

Precisamos operar em conjunto para alcançar repercussão internacional, principalmente entre os consumidores de produtos gerados por empresas que promovem a violência contra camponeses, líderes comunitários e defensores dos patrimônios naturais, empresas estas que amiúde se utilizam de trabalho análogo ao escravo, violando os direitos básicos dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais.

 

Alonso Batista dos Santos e Gerardo Iglesias | Fotos: Nelson Godoy

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