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Veneno e saúde, uma combinação impossível

Agrotóxicos, uma arma química particularmente nociva

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos desde 2013, e essa condição vem se consolidando ano após ano, especialmente após a chegada do governo de Jair Bolsonaro. Paralelamente, os casos de câncer no país dispararam e muitos deles são precisamente devido à exposição aos agrotóxicos.

Assim informa a publicação recente da revista Ozy, que vincula um dos pilares do modelo agrícola, o uso de agrotóxicos, à deterioração da saúde dos brasileiros.

Em 2019, informa o texto, “o Instituto Nacional do Câncer previa que houvesse cerca de 600 mil novos casos de câncer, a segunda principal causa de morte no Brasil«, um aumento de 75% em comparação com 2000.

“Alguns desses cânceres provavelmente estão ligados ao uso de pesticidas. Mas isso não é tudo: nas áreas agrícolas do país, onde os agrotóxicos são mais utilizados, há maior incidência de defeitos congênitos”, disse a autora do artigo, a jornalista e escritora Beatriz Miranda, citando pesquisas sobre o assunto.

«E, embora nos últimos anos outros países tenham tomado medidas para restringir o uso de agrotóxicos — levando em conta os efeitos que têm não só sobre os seres humanos, mas também na fauna essencial, como nas abelhas polinizadoras— o Brasil está avançando rapidamente na direção oposta”.

Mais e mais

No ano passado, as autoridades brasileiras autorizaram 474 agrotóxicos, a maior quantidade desde 2005. Só nos primeiros cem dias do mandato de Bolsonaro, iniciado em 1º de janeiro de 2019, foram concedidas 52 licenças para produtos desse tipo.

Miranda ressalta que 28 das 96 substâncias contendo agrotóxicos que entraram no mercado brasileiro estão proibidas na União Europeia e 30 na Índia.

Para Alan Tygel, coordenador da Campanha Permanente contra agrotóxicos e pela Vida, uma rede com mais de cem associações brasileiras que promovem a agroecologia, o governo Bolsonaro, de extrema-direita, está «desmontando todas as políticas desenvolvidas para promover a agroecologia e a agricultura familiar

Para Antonio Andrioli, professor de agroecologia e desenvolvimento rural sustentável da Universidade Federal da Fronteira Sul, a ideia do Executivo de extrema-direita é convencer que os agrotóxicos não são perigosos.

Disso não se fala, disso não se escreve

A tal ponto que a proposta é proibir em escolas públicas a utilização do termo «agrotóxicos», substituindo-o pelo termo «defensivos fitossanitários”.

As autoridades não só propõem proibir estes termos, também censuram pesquisadores que comprovaram a nocividade desses produtos, como aconteceu com Mônica Lopes Ferreira, imunologista do prestigioso Instituto Butantan e autora de uma pesquisa que mostra que dez dos pesticidas mais comuns no Brasil são prejudiciais mesmo em pequenas quantidades.

«Eles me disseram que eu não sou mais a diretora do laboratório que eu dirigi por três anos. Eles argumentam que eu conduzi «investigações independentes» e que me ‘insubordinei’, o que não é verdade. Só respondi a um pedido de pesquisa do Ministério da Saúde», disse a especialista, citada por Ozy

Em consonância com transnacionais produtoras de agrotóxicos como Bayer-Monsanto, Dow ou Syngenta, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que os novos produtos autorizados serão benéficos para o meio ambiente pois ao serem «mais eficazes serão utilizados em menor quantidade”.  
 
Mas os agrotóxicos são realmente tóxicos, diz Tygel. São como «armas químicas» altamente contaminantes e mortais.

Segundo um relatório apresentado pela Campanha Permanente contra agrotóxicos e pela Vida, «um em cada quatro municípios do Brasil está contaminado por 27 agrotóxicos, dos quais 16 são extremamente tóxicos segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil”.

O relatório também mostra, afirma Miranda em seu artigo, “que os limites brasileiros de resíduos de pesticidas na água são até 5.000 vezes superiores aos da Europa«.

As águas brasileiras são “como um coquetel tóxico” por causa da presença maciça de agrotóxicos nelas, afirma Mônica Lopes Ferreira.

“Se apenas 10% do que foi investido em agrotóxicos nos últimos 60 anos tivessem sido investidos em agroecologia, o Brasil seria hoje totalmente agroecológico”, ressalta Tygel.