FRIGORÍFICOS

Mergulhando fundo nos escândalos

A JBS e sua íntima relação com o poder

Além de ser a principal processadora de carnes do mundo, a JBS Friboi tem, como tantas outras grandes empresas, um poder descomunal na política brasileira e goza dos favores da maior parte do establishment político do país. Isto fica evidente ao considerar o seu enorme protagonismo nos diversos escândalos vazados recentemente.

A empresa, dirigida pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, conseguiu crescer graças a uma “política de Estado” criada pelos governos, independentemente dos partidos, visando a alavancar as empresas nacionais para atingirem patamares mundiais, principalmente dos setores da alimentação, mineração, energia e construção.

Em toda essa história, há um protagonista de peso: O BNDES, o maior banco de desenvolvimento econômico e social do Brasil, criado em 1952.

Em 2014, suas linhas de crédito já superavam amplamente as do Banco Mundial. Só naquele ano, o BNDES liberou 62,5 bilhões de dólares, destinando mais de um terço desse montante ao setor de infraestrutura.

De acordo com a Agência IPS, “os financiamentos do BNDES se multiplicaram por seis durante os governos do Partido dos Trabalhadores, primeiro com Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois com sua sucessora Dilma Rousseff”.

Com dinheiro público, proveniente entre outros do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT), foram financiados megaprojetos que posteriormente se converteram em megaproblemas.

O baú sem fundo da JBS
E a vista grossa das autoridades

Com o crescimento do banco, muitas empresas também cresceram, recebendo linhas de crédito multimilionárias em condições extremamente favoráveis, permitindo aumentar seus ativos, ter acesso a maiores fatias do mercado mundial, mas sem gerarem nenhum benefício para o desenvolvimento social nem para a qualidade de vida dos seus trabalhadores e trabalhadoras.

E com a JBS o que aconteceu foi o seguinte: os poderes públicos fizeram vista grossa diante das práticas monopólicas desta empresa, diante das condições de trabalho insalubres nas suas fábricas de produção, diante do fechamento dos frigoríficos de menor porte e também diante das reiteradas acusações de estarem seus trabalhadores em situações análogas a da escravidão, em suas fazendas de produção de gado.

A JBS Friboi, como a BRF (outra “mega” empresa do setor das carnes), a construtora Odebrecht, e a Vale do Rio Doce (mineradora multinacional brasileira), foi também – como elas – denunciada por suas recorrentes práticas antissindicais, além de seu envolvimento em tudo que é tipo de escândalos.

O cenário só não é mais patético porque os sindicatos agiram, com suas duríssimas campanhas de denúncia, muitas com o apoio da UITA e principalmente do Ministério Público do Trabalho (MPT), entre outras autoridades, conseguindo mostrar uma atuação de destaque.

 
Delação premiada
A carne dos políticos está assando

Entre os escândalos mais recentes, estão o esquema de corrupção na Petrobrás, investigada pela Operação Lava Jato, a comercialização de carne vencida investigada pela Operação Carne Fraca, o financiamento ilegal das campanhas de diversos partidos e as propinas entregues aos líderes políticos em troca de favores.

O delegado federal Mauricio Moscardi Grillo, que participou das Operações Lava Jato e Carne Fraca, falou de “esquemas mafiosos” ao se referir à “íntima relação” entre os grandes empresários e os dirigentes políticos, incluindo os diretores da JBS nesses esquemas.

No Brasil, “o sistema político está praticamente todo apodrecido, porque há uma relação íntima entre funcionários do Estado e empresários gerando esquemas ilegais, sendo esta uma das práticas mais comuns do país”, disse quase com os mesmos termos um analista político.

Os próprios irmãos Batista reconheceram a existência desses esquemas quando semanas atrás, para se beneficiarem de disposições que reduzem a pena de quem colaborar com a justiça em determinadas investigações – a chamada “delação premiada” – “queimaram” líderes políticos de primeira linha.

Nessas confissões, admitiram haver entregado cerca de 600 milhões de reais (aproximadamente 200 milhões de dólares) a uns 1.900 políticos de quase todos os partidos em troca de váriosfavores”.

Mas não terminam por aí: A JBS Investimentos, acionista maioritária do grupo JBS, isto é, o cerne do clã Batista, teve que negociar com cinco promotores brasileiros, na semana passada, o pagamento de uma multa de 10,3 bilhões de reais (uns 3,3 bilhões de dólares), devido ao papel que tiveram nestes esquemas de corrupção.

De acordo com os promotores, esta multa, que os proprietários da JBS se comprometeram a pagar em 25 anos, é a maior multa desse tipo até agora no mundo.

Entre os principais acusados pelos Batista, está o presidente Michel Temer, que chegou ao poder há menos de um ano após um inapresentável processo político que levou ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.

Joesley Batista gravou e filmou Temer durante encontros onde recomendava continuar comprando o silêncio de políticos que sabiam da existência dos esquemas de corrupção. O presidente tinha também recebido, para proveito próprio, uns 4,5 milhões de dólares das mãos da JBS.

As declarações dos irmãos Batista – que continuam livres e foram, no caso de Joesley, inclusive autorizados a viajar para o exterior – respingaram em outros integrantes do atual governo e em vários de seus principais aliados políticos, como o ex-candidato presidencial Aécio Neves, além dos integrantes das administrações anteriores.

 
A gigante do setor das carnes
Suspeitas de corrupção além das fronteiras

A revista brasileira Galileu estabeleceu em uma investigação, publicada em meados de maio, que esta megaempresa, criada na década de 1950 por José Batista Sobrinho (de suas iniciais surge o nome da empresa), manteve uma “íntima relação” com o poder político, praticamente desde o seu surgimento.

Sua internacionalização começou em 2005, quando a empresa comprou o frigorífico Swift Armour, da Argentina, sendo consolidada muito pouco depois, ao adquirir a central da Swift nos Estados Unidos, por 1,4 bilhão de dólares, e ao se instalar em países vizinhos e produtores de carne, como o Uruguai e o Paraguai.

Foi assim que a empresa passou a ser a maior processadora de carne do mundo, com uma capacidade de abate de mais de 47 mil cabeças de gado por dia.

No capital da empresa já estava o BNDES, que hoje controla 24 por cento das ações da JBS.

Hoje, afirma Galileu, a JBS é proprietária de 50 marcas, operando em 22 países, com mais de 200 mil pessoas empregadas. Em 2016, seu volume de negócios chegou a 170 bilhões de reais, uns 52 bilhões de dólares, com um lucro de 376 milhões de reais (uns 115 milhões de dólares).

Da Argentina, o primeiro país estrangeiro onde a JBS desembarcou, surgiu um pedido de investigação sobre a possibilidade de a transnacional ter replicado no exterior o seu modus operandi de dentro do Brasil. O pedido foi feito por Dardo Chiesa, presidente das Confederações Rurais Argentinas (CRA).

“Alguém neste bendito país, onde não existe a figura do arrependido, deveria estudar o comportamento desta empresa, uma matriz de corrupção, para ver se esta mesma matriz não se replicou na Argentina, se houve luz verde ou conivência com as autoridades nacionais, e assim buscar os mecanismos para que isto não se repita”, disse Chiesa.

 
A exploração corre solta dentro do Brasil
Milhares de processos trabalhistas

Além dos megaescândalos de corrupção em que está implicada, a JBS é uma das empresas que mais têm processos em execução na Justiça do Trabalho.

Nesta segunda 5, o jornal Folha de São Paulo informou que só em 2016, os trabalhadores entraram com 34 mil ações na justiça contra a JBS, contra as 31.100 ações do ano anterior.  

Esses processos trabalhistas surgem devido em grande parte aos acidentes de trabalho, cujo aumento foi de 11 por cento de um ano a outro, chegando a 2.680 acidentes.

Para a JBS esse aumento nos acidentes se explica com o maior número de pessoal contratado. Entretanto, o jornal explica que o número de funcionários do grupo cresceu menos de um por cento no período em questão.

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